23 de dezembro de 2009

Melhor é Possível?

No filme, o personagem de Jack Nicholson pergunta aos pacientes do seu psiquiatra na sala de espera algo parecido com "E se não ficar melhor do que isso"? E se isso for o máximo que poderemos obter, que conseguiremos obter de felicidade na vida? E se aquela memória, aquele momento único e mágico, tiver sido o ponto mais alto da sua vida?
Talvez signifique que você é um tremendo egoísta, que não consegue ver além de si e do momento. E provavelmente é isso, pois relativizaremos aqui. As idades mudam, as prioridades mudam, os focos mudam. MAS, queremos que mudem? Queríamos que mudassem? Sim, sim, pouco importa se queríamos ou não, lidemos com isso e pronto. É o que nos resta, aceitar os desígnios, o desenho supremo da criação, a falibilidade.
Penso que esse inconformismo diante da resignação deve pertencer ao que chamam "instinto de preservação" humano, Alive and Kicking, sempre.

9 de dezembro de 2009

A Despersonalização

Clubes. Grupos. Panelas. ou se está dentro, ou não. Então, uma mudança ocorre. Seus pensamentos não são mais os seus, seus originais viram cópias, tudo para ser aceito. Estilo, corpo, trejeito, cigarro, olhares estudados no espelho. A personalidade se encolhe em sua consciência, mas ainda existe. Então, as exigências de sucesso aumentam. Manter Status, fazer mais que o amigo, mais que o vizinho, mais que tudo, mais que pode, mais merda. Mais medo. Teorias, é autodestruição, é conjuntural, é fase. E a personalidade míngua, então só sobra uma sombra. Prazeres morrem, diminuem, encolhem, brocham. Vontade deixa de ser prioridade, subexistir é premissa. Então, a condição de escravo se impõe: não sou dono de meus dias e noites, não sou dono de nada que pensei possuir. Nem mesmo meus pensamentos, que julgava em uma esfera completamente inatingível, agora nem os reconheço. Não sinto nem deixo sentir, nada além de vazio, nada a existir.

2 de novembro de 2009

Quixote

Ao meu redor mais e mais sonhadores rendem-se ao mundo real, deixando de lado ideais e ideias para ingressarem na anárquica rotina de fazer sempre um pouquinho todo dia. Essas crianças vão armando-se, ou sendo armadas, até os cabelos, para que enfrentem a guerra de serem responsáveis e portanto responsabilizáveis por compromissos dos quais não se atreverão a fugir, com risco de perderem tudo o que construíram, castelos de cartas mal empilhadas que não alcançarão nem atingirão Deus, não espalharão a discórdia mas também não trarão concordância, apenas um breve êxtase durante suas construções, e uma rápida - porém esperada - decepção diante de sua inevitável queda.
O exército de sonhadores, arregimentados pelo universo do Real, farão falta momentânea, mas depois retornarão, assim que perceberem que sua proposta atual não contempla felicidade. O problema é que esse tempo até tal percepção, esse "assim que", pode ser longo, e a volta, tardia.
Enquanto isso, no mundo da fantasia, as baixas são enormes. Os Quixotes que ficaram quase não dão conta dos moinhos de vento, pás sobre a cabeça, pés sem raízes. "O que eles pretendem?", perguntam-se os realistas, montados em suas razões, de posse de seus argumentos bem estudados e marcas que os definem em castas. A resposta é complexa, mas a tentativa de uma síntese vai aqui: Olhar por outros ângulos, declarar a morte do Certo e bradar "longa vida" ao Duvidoso.

23 de outubro de 2009

Machado na Pedra


Faíscas. Cascalho. Machado. Na Pedra. Dor. Lateja. Suor. Articulações. Porrada. Porrada. Porrada. Faíscas. Porrada. Faíscas. Porrada. Cascalho. Porrada. Dor. Dor. Dor. Porrada. Eu não. Não posso. Não mais. Porrada. Deixar. Esse tipo. De coisa. Porrada. Acontecer. Acontecer. Acontecer. Repetindo. Repetindo. Repetindo. Porrada. Cascalho. Porrada. Calos. Porrada. Dor. Porrada. Doi Pensar. Doi Lembrar. Doi Fazer. Doi Deixar. Porrada. Porrada. Porrada.

17 de outubro de 2009

Ilustre Desconhecido

Impressionante a capacidade daqueles que não conhecem alguém por inteiro, de julgar esse alguém apenas pela pequena parte que, talvez, não ignorem por completo. Ou isso, ou talvez eu não me conheça nada nada nada, e outros saibam de mim bem mais do que eu sequer desconfie.

1 de outubro de 2009

Quadro com Movimentos

No começo ele era tudo, o mundo havia sido prometido a ele. Sentia-se forte, poderoso, invencível. Escondia-se por trás de uma fachada frágil, mas sabia-se destinado, pré-destinado. Então vieram os dardos, as lanças a atravessarem-lhe a carne, as feridas que não cicatrizavam. Por que isso, por que agora? A fragilidade de fachada não era só fachada? A força era falsa?
A base era feita de areia, não havia calço, o caminhão desabava ladeira abaixo. As certezas todas despencaram, insustentáveis, e quando uma certeza despenca, o trabalho para criar novas certezas é muito grande, normalmente acabamos por nos contentar com probabilidades, meras, maiores ou menores.
Ele não quer ter esse trabalho. Não quer mais as certezas, com medo que voltem a despencar e a despedaçá-lo. É frágil. E os lobos acabarão com ele. É personagem secundário, que morre para valorizar a ascensão do herói de verdade. Na verdade, faria um favor ao mundo se sumisse, pois não há mais lugar para fracos frágeis - se não aguenta sustentar a própria máscara, que se dane.
Então, eu o encontrei, choramingando e reclamando, e bati. Bati com força, rasguei meus dedos em seus dentes, bati com gosto, cuspi em sua cara, esfreguei sua cabeça no chão de pedras, esfolei sua orelha. Nojo desse imbecil, nojo desse nada que não vale o chão que pisa, pois pra pisar tem que pagar, para aparecer tem que ter presença postura e altivez, no nosso mundinho zoológico, onde as feras ficam em exposição, mas permanecem enjauladas, como um quadro com movimentos.

18 de setembro de 2009

Quem Tem Sensibilidade para Mudar o Mundo Não tem a Vontade de Poder de um Lider

Uma frase jogada quase que ao acaso num filme que assisti há poucos dias, "Antes do Por do Sol" (Before Sunset, EUA 2004, Direção Richard Linklater, com Ethan Hawke e Julie Delp, sequência do filme "Antes do amanhecer", de 1995, mesmo diretor, mesmos atores).
A Frase valeria o filme se o resto da história não fosse bom, mas é. No primeiro filme o casal protagonista, quase adolescentes, se conhecem e vivem uma estória de amor em um trem pela Europa. Na sequência de 2004, o casal se reencontra em Paris 9 anos depois. No reencontro ela diz que trabalha com causas sociais, ongs, etc. E menciona um episódio onde ela e seus pares estavam atrás de doações para levar lápis a estudantes no México. Dai ela se dá conta do paradoxo do título deste post, com minhas palavras: quem tem a sensibilidade, conhecimento e desejo de mudar o mundo, de levar o conhecimento das coisas certas aos lugares certos, de tal forma a provocarem uma mudança real nas coisas erradas do mundo, simplesmente não têm a ambição necessária para se tornar um líder, a vontade de poder que o leva a fazer o esforço necessário para alçá-lo à posição em questão.
Evoluindo esse raciocínio: É possível talvez que quem tenha desenvolvido a sensibilidade de mudar o mundo, simplesmente rejeite o poder, talvez justamente por identificá-lo com tudo aquilo contra o que luta, ou talvez por medo de sujar as mãos com uma realidade difícil de aceitar, a impotência. Enquanto isso, o obstinado futuro líder se convence que só poderá fazer a diferença quando chegar na posição futura almejada, e que para tanto os fins justificam os meios. Compulsivos. Viciados nos próprios erros. Humanos.