25 de agosto de 2012

Recorte

Não se pode ser tudo. Há que se fazer escolhas. Uma alma contida em uma escala pequena de desejos não brilha. Uma alma incontida, desejando incondicionalmente a tudo e a todos, também não brilha. Ha que se fazer recortes. Aparar arestas. Lapidar-se. Uma alma incontida almeja tocar o céu, mas o faz por caminhos demasiadamente terrenos. A flor e o diamante. Há que se enxergar a roupa invisível do rei e, ainda assim, dizer a todos que o traje é belo. Há que se amar o poema, mas martelar o duro metal a fim de dar a ele uma forma que dificilmente será alterada. Alterar a forma, a fôrma, formar uma vida, a cada martelada uma nova forma, a cada martelada uma nova dor. Optar pelo metal bruto ou o metal trabalhado. Se opta-se pelo bruto, admira-se a beleza natural da gema; se opta-se  pela lapidação, a forma natural se vai, para ser transformada em outra beleza. Contenha-se. Castigue-se. Capriche. E lembre-se: tudo vai se perder um dia, a arte é fátua, o fogo extingue-se, a vida nasce morta.

26 de julho de 2012

O anoitecer das suas opções

Respiro fundo e admito: não acertei em todas as minhas escolhas. A questão é que este fato, o não acertar, foi também uma escolha. Com ela convivo. É a partir dela que farei novas escolhas. Acho que o nome disso é "aprender com os erros". Nada como frases feitas, jargões e expressões para simplificar e sintetizar uma gama enormemente variada de ações e sentimentos.
No sonho, mergulho no escuro. Um túnel feito apenas da sensação de ir para frente e para o fundo, sem nenhuma possibilidade de retorno. No sonho não sou humano, sou  como um golfinho, não tenho braços, não tenho nada que me freie, somente a oscilação do corpo que termina com uma chicotada da cauda e me impulsiona. Nada vejo, mas paro a milímetros de uma borda de pedra, a parede que simboliza um limite, um fim. Sem cor, sem cheiro, sem pensamento.
Ontem nasceram-me mãos. Para comemorar, de um peixe que por mim passava extirpei suas entranhas. Minhas novas mãos sangraram. Não senti dor. Não senti calma. Não senti pena. Não senti.

15 de julho de 2012

Link

A casa escura e vazia. A minha presença não enche todo esse espaço, então prefiro apenas o quarto. O silêncio faz com que pensamentos e memórias tornem-se muito mais palpáveis. O som que vem da janela é como uma concha, pode-se ouvir algo do mar ao fundo, e por cima buzinas, freadas, vozes e aviões. Eu tenho um pouco de medo desse barulho, e acabo colocando algo mais barulhento por cima, como uma camada sonora extra. O medo não é do barulho em si, mas sim dos pensamentos que tento abafar. Na arca bíblica, perdida num mundo feito de água, e levando consigo a súplica duplicada do choro de todos os animais, Noé teria se queixado de não ser capaz de ouvir os próprios pensamentos. Sou o meu prórpio Noé, e sou também minha arca. Embora queira acreditar que não sou mundano, percebo que ninguém , de verdade, é terreno. Vivemos para o futuro, estamos aqui hoje em função do passado de outrém, e nunca somos verdadeiramente nós.

Nós, pronome da primeira pessoa do plural, ou nós, o plural de nó. Não somos nó, somos links, hiperlinks. Um nó, dado em uma corda de barco, por exemplo, representa um compromisso estabelecido entre a corda e o mastro, entre o barco e o porto. Um link é apenas uma referência, um indicativo que dá passagem a um outro elemento. O link representa o elemento, mas não assume características daquilo que é representante. É uma referência sem compromisso, sem garantias, se o site linkado não estiver mais ali, paciência. Como já disse, nunca somos nós. Somos, no máximo, links.

Trabalhamos para o futuro, e nos narcotizamos no presente para que possamos tolerar chegar um dia ao inatingível futuro. Quando eu tiver barba, quando fizer dezoito, onde estarei daqui a 5 anos, os fins sempre justificando os meios, a felicidade sempre sendo postergada. Deixamos para o meio apenas o vazio. O plasma a que chamamos "Ar" a nos rodear, como um grande espírito nos envolvendo, claramente sussurrando ao pé de nossos ouvidos "és ilha". Encontramo-nos cercados de um escuro que rouba a luz, em ambientes que parecem impedir a propagação, por mais que se troque a lâmpada, mas tudo continua opaco.

Algum dia, não muito distante, entrarei no mar de sons, não mais o ouvirei de dentro da concha, mas farei parte das buzinas, freadas, vozes e barulhos de avião.Talvez leve comigo um fone de ouvido. Mas, por hora, tenho muito o que pensar e lembrar. E costurar.

12 de julho de 2012

Aqui Jaz o Amor

"Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza." (Álvaro de Campos - het. Fernando Pessoa)

Aqui jaz o amor. Ele ficou feio, pois a vida ficou feia. O amor de amar sentir, de amar estar perto, de amar admirar o outro, acabou. Ele tem força para renascer? Hoje, duvido. Hoje eu sou luto, e não luta. Hoje eu não sou nada além de amargo, ácido, calcinante. Hoje não sou nada além de desajustado, descompassado, inadequado, errante, errado. A minha tese não importa. O meu tesão não tem mais tempo. O meu tesão não tem mais eu. Eu era referenciado por ela. O que gostar, o que vestir, como ser bom, como ser legal. Admiração cede lugar à Admoestação. Lambo minhas feridas, mas agora fui posto num lugar onde não poderei, não mais, causar ferimentos. A minha acidez vai me dissolver e, juntos, eu e minha bile venenosa e ácida, escorreremos pelo ralo, deixando o mundo aos belos de coração. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo."

Nuclear

Quando um núcleo racha, podemos suspeitar de algumas coisas. a primeira, é que não se tratava de um núcleo, ou seja, havia divisibilidade; a segunda, consequência da primeira, é que este núcleo só se manteve unido porque havia a querência, as partes se atraíam de tal modo que se identificavam como um núcleo. Núcleo duro, núcleo sólido; a terceira hipótese seria pensar que forças fracas uniam esse núcleo, ou melhor, fortes forças advindas da fraqueza de cada parte. Torço para que a terceira ideia seja nula. E torço para que a força forte seja uma prova de que as partes podem se unir para formar mais do que uma fornalha.

18 de abril de 2012

Entendendo a hashtag #orkutizacao


"Orkutizar" é sinônimo de que? Democratizar? Empobrecer? É uma invasão? Estão tentando "invadir sua praia", "mexer no seu queijo"? Ora, me poupem desse elitismo camuflado! Falem abertamente que o "instagram", aquele aplicativo semi-retardado de aplicação de filtros mais do que manjados há décadas por qualquer usuário de photoshops ou similares, ficou menos legal quando o amigo parou de receber as fotos cabeça dos Iphones da avenida Paulista, e passou a receber postagens do ônibus a caminho de São Miguel Paulista, postados de um celular genérico dotado de Android... Falem abertamente que as correntes recheadas de crendices, que ofendem a inteligência da nossa elite, estão perturbando você. Grite pra todos que você não gosta dessa mistura, que proibirá seus filhos de frequentarem as redes sociais (só agora???). De quebra, faça um abaixo-assinado junto aos pais de seus filhos, frequentadores daquela escola chique, que só existe porque o Brasil não educou o seu povo - e quando digo povo, incluo você também - revogando quaisquer estações de metrô que ameacem a pureza socio-econômica da sua espécie... A real é que uma rede social não é um clube privé. Você pode separar, ou cancelar, quem não deseja ver. Mas pare de cantar de galo, pois o terreiro não é e nem nunca foi seu.

30 de março de 2012

Como eliminar o seu lado bom


Ele sentia-se pequeno e fraco. Mas destacava-se pelo seu raciocínio rápido. Fazia com que as atenções se voltassem para ele. Só que ser pequeno e fraco o incomodava demais. Então, empenhou-se em ser forte e grande, como aqueles a quem admirava. Ele cresceu. E ficou mais vaidoso. Em seu novo torso forte e grande, colou marcas fortes e grandes, para que elas dissessem tudo o que ele queria ser sem que ele abrisse a boca. E as marcas diziam o quão nobre ele era, , e como ele tinha bom gosto, sucesso e, principalmente, merecia cada milímetro do que vestia, comia, usava, dirigia. As marcas famosas tornavam-no famoso, as marcas queridas tornavam-no querido. Os músculos tornavam-no confiável, e seu olhar era carregado de altivez. Por isso, não dava mais satisfações. Também não havia mais a necessidade de compensar pelas fraquezas, e nem de usar tanto o seu raciocínio rápido. Ele havia mudado, ao invés de bonito e agradável, tornara-se um ser grande, forte e revestido de marcas, ou seja, um ser que PARECIA bonito e agradável - de longe. Mas, de perto, havia ficado feio. Menosprezava sem dizer a ninguém àqueles que não eram grandes e fortes. Desprezava aqueles que não falavam a sua língua e que gostavam das mesmas coisas. Desprezava-se a si mesmo antes de ser grande e forte. E decidiu que sua vida seria vivida com o objetivo único de satisfazer as suas necessidades. O Resto, seria apenas o resto.

18 de fevereiro de 2012

A Gaiola de Adele


Vivemos tempos vazios. Vazios de presente. Melancólicos, como uma música da Adele. A moça representa bem a dor do não realizado, não vivido. Adele é o retrato de uma geração que posa e emposta com firmeza, mas que carrega no peito um vão, um vazio sem perspectivas de preenchimento. Adele me lembra a frase da música "Nobody Home", do Pink Floyd:

"I've got wild staring eyes /I've got a strong urge to fly /But I've got nowhere to fly to.... "

Hoje, mais do que nunca, indivíduos têm a força, têm o poder de se expressar, de se conectar, de se fazer ver e ouvir. E quando todos têm o poder, ninguém tem nada. Toda essa potência, todo esse poder, foi dado a cabeças cheias de dúvidas, cabeças solitárias, pássaros engaiolados que não têm ideia de seu potencial.

Adele canta o sofrimento autêntico. Fosse uma alegria, e quase não seria ouvida. A dor encontra eco nos corações e mentes de todos os pássaros engaiolados do planeta.