26 de julho de 2012

O anoitecer das suas opções

Respiro fundo e admito: não acertei em todas as minhas escolhas. A questão é que este fato, o não acertar, foi também uma escolha. Com ela convivo. É a partir dela que farei novas escolhas. Acho que o nome disso é "aprender com os erros". Nada como frases feitas, jargões e expressões para simplificar e sintetizar uma gama enormemente variada de ações e sentimentos.
No sonho, mergulho no escuro. Um túnel feito apenas da sensação de ir para frente e para o fundo, sem nenhuma possibilidade de retorno. No sonho não sou humano, sou  como um golfinho, não tenho braços, não tenho nada que me freie, somente a oscilação do corpo que termina com uma chicotada da cauda e me impulsiona. Nada vejo, mas paro a milímetros de uma borda de pedra, a parede que simboliza um limite, um fim. Sem cor, sem cheiro, sem pensamento.
Ontem nasceram-me mãos. Para comemorar, de um peixe que por mim passava extirpei suas entranhas. Minhas novas mãos sangraram. Não senti dor. Não senti calma. Não senti pena. Não senti.

15 de julho de 2012

Link

A casa escura e vazia. A minha presença não enche todo esse espaço, então prefiro apenas o quarto. O silêncio faz com que pensamentos e memórias tornem-se muito mais palpáveis. O som que vem da janela é como uma concha, pode-se ouvir algo do mar ao fundo, e por cima buzinas, freadas, vozes e aviões. Eu tenho um pouco de medo desse barulho, e acabo colocando algo mais barulhento por cima, como uma camada sonora extra. O medo não é do barulho em si, mas sim dos pensamentos que tento abafar. Na arca bíblica, perdida num mundo feito de água, e levando consigo a súplica duplicada do choro de todos os animais, Noé teria se queixado de não ser capaz de ouvir os próprios pensamentos. Sou o meu prórpio Noé, e sou também minha arca. Embora queira acreditar que não sou mundano, percebo que ninguém , de verdade, é terreno. Vivemos para o futuro, estamos aqui hoje em função do passado de outrém, e nunca somos verdadeiramente nós.

Nós, pronome da primeira pessoa do plural, ou nós, o plural de nó. Não somos nó, somos links, hiperlinks. Um nó, dado em uma corda de barco, por exemplo, representa um compromisso estabelecido entre a corda e o mastro, entre o barco e o porto. Um link é apenas uma referência, um indicativo que dá passagem a um outro elemento. O link representa o elemento, mas não assume características daquilo que é representante. É uma referência sem compromisso, sem garantias, se o site linkado não estiver mais ali, paciência. Como já disse, nunca somos nós. Somos, no máximo, links.

Trabalhamos para o futuro, e nos narcotizamos no presente para que possamos tolerar chegar um dia ao inatingível futuro. Quando eu tiver barba, quando fizer dezoito, onde estarei daqui a 5 anos, os fins sempre justificando os meios, a felicidade sempre sendo postergada. Deixamos para o meio apenas o vazio. O plasma a que chamamos "Ar" a nos rodear, como um grande espírito nos envolvendo, claramente sussurrando ao pé de nossos ouvidos "és ilha". Encontramo-nos cercados de um escuro que rouba a luz, em ambientes que parecem impedir a propagação, por mais que se troque a lâmpada, mas tudo continua opaco.

Algum dia, não muito distante, entrarei no mar de sons, não mais o ouvirei de dentro da concha, mas farei parte das buzinas, freadas, vozes e barulhos de avião.Talvez leve comigo um fone de ouvido. Mas, por hora, tenho muito o que pensar e lembrar. E costurar.

12 de julho de 2012

Aqui Jaz o Amor

"Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza." (Álvaro de Campos - het. Fernando Pessoa)

Aqui jaz o amor. Ele ficou feio, pois a vida ficou feia. O amor de amar sentir, de amar estar perto, de amar admirar o outro, acabou. Ele tem força para renascer? Hoje, duvido. Hoje eu sou luto, e não luta. Hoje eu não sou nada além de amargo, ácido, calcinante. Hoje não sou nada além de desajustado, descompassado, inadequado, errante, errado. A minha tese não importa. O meu tesão não tem mais tempo. O meu tesão não tem mais eu. Eu era referenciado por ela. O que gostar, o que vestir, como ser bom, como ser legal. Admiração cede lugar à Admoestação. Lambo minhas feridas, mas agora fui posto num lugar onde não poderei, não mais, causar ferimentos. A minha acidez vai me dissolver e, juntos, eu e minha bile venenosa e ácida, escorreremos pelo ralo, deixando o mundo aos belos de coração. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo."

Nuclear

Quando um núcleo racha, podemos suspeitar de algumas coisas. a primeira, é que não se tratava de um núcleo, ou seja, havia divisibilidade; a segunda, consequência da primeira, é que este núcleo só se manteve unido porque havia a querência, as partes se atraíam de tal modo que se identificavam como um núcleo. Núcleo duro, núcleo sólido; a terceira hipótese seria pensar que forças fracas uniam esse núcleo, ou melhor, fortes forças advindas da fraqueza de cada parte. Torço para que a terceira ideia seja nula. E torço para que a força forte seja uma prova de que as partes podem se unir para formar mais do que uma fornalha.

18 de abril de 2012

Entendendo a hashtag #orkutizacao


"Orkutizar" é sinônimo de que? Democratizar? Empobrecer? É uma invasão? Estão tentando "invadir sua praia", "mexer no seu queijo"? Ora, me poupem desse elitismo camuflado! Falem abertamente que o "instagram", aquele aplicativo semi-retardado de aplicação de filtros mais do que manjados há décadas por qualquer usuário de photoshops ou similares, ficou menos legal quando o amigo parou de receber as fotos cabeça dos Iphones da avenida Paulista, e passou a receber postagens do ônibus a caminho de São Miguel Paulista, postados de um celular genérico dotado de Android... Falem abertamente que as correntes recheadas de crendices, que ofendem a inteligência da nossa elite, estão perturbando você. Grite pra todos que você não gosta dessa mistura, que proibirá seus filhos de frequentarem as redes sociais (só agora???). De quebra, faça um abaixo-assinado junto aos pais de seus filhos, frequentadores daquela escola chique, que só existe porque o Brasil não educou o seu povo - e quando digo povo, incluo você também - revogando quaisquer estações de metrô que ameacem a pureza socio-econômica da sua espécie... A real é que uma rede social não é um clube privé. Você pode separar, ou cancelar, quem não deseja ver. Mas pare de cantar de galo, pois o terreiro não é e nem nunca foi seu.

30 de março de 2012

Como eliminar o seu lado bom


Ele sentia-se pequeno e fraco. Mas destacava-se pelo seu raciocínio rápido. Fazia com que as atenções se voltassem para ele. Só que ser pequeno e fraco o incomodava demais. Então, empenhou-se em ser forte e grande, como aqueles a quem admirava. Ele cresceu. E ficou mais vaidoso. Em seu novo torso forte e grande, colou marcas fortes e grandes, para que elas dissessem tudo o que ele queria ser sem que ele abrisse a boca. E as marcas diziam o quão nobre ele era, , e como ele tinha bom gosto, sucesso e, principalmente, merecia cada milímetro do que vestia, comia, usava, dirigia. As marcas famosas tornavam-no famoso, as marcas queridas tornavam-no querido. Os músculos tornavam-no confiável, e seu olhar era carregado de altivez. Por isso, não dava mais satisfações. Também não havia mais a necessidade de compensar pelas fraquezas, e nem de usar tanto o seu raciocínio rápido. Ele havia mudado, ao invés de bonito e agradável, tornara-se um ser grande, forte e revestido de marcas, ou seja, um ser que PARECIA bonito e agradável - de longe. Mas, de perto, havia ficado feio. Menosprezava sem dizer a ninguém àqueles que não eram grandes e fortes. Desprezava aqueles que não falavam a sua língua e que gostavam das mesmas coisas. Desprezava-se a si mesmo antes de ser grande e forte. E decidiu que sua vida seria vivida com o objetivo único de satisfazer as suas necessidades. O Resto, seria apenas o resto.

18 de fevereiro de 2012

A Gaiola de Adele


Vivemos tempos vazios. Vazios de presente. Melancólicos, como uma música da Adele. A moça representa bem a dor do não realizado, não vivido. Adele é o retrato de uma geração que posa e emposta com firmeza, mas que carrega no peito um vão, um vazio sem perspectivas de preenchimento. Adele me lembra a frase da música "Nobody Home", do Pink Floyd:

"I've got wild staring eyes /I've got a strong urge to fly /But I've got nowhere to fly to.... "

Hoje, mais do que nunca, indivíduos têm a força, têm o poder de se expressar, de se conectar, de se fazer ver e ouvir. E quando todos têm o poder, ninguém tem nada. Toda essa potência, todo esse poder, foi dado a cabeças cheias de dúvidas, cabeças solitárias, pássaros engaiolados que não têm ideia de seu potencial.

Adele canta o sofrimento autêntico. Fosse uma alegria, e quase não seria ouvida. A dor encontra eco nos corações e mentes de todos os pássaros engaiolados do planeta.

10 de setembro de 2011

Não escrevo há meses

Basicamente, tudo o que pensei em escrever neste blog nos últimos meses pareceu vazio de sentido. Ah, sim, nunca fez de fato muito sentido, a novidade é eu me incomodar com isso. Zero Sentido. Um herói vagando à noite pela cidade, vestido dos pés à cabeça com uma elanca apertada na barriga e no saco, um ZS mal costurado onde deveria ser o peito, buscando em cada canto, cada janela acesa, cada bar, algum sentido por fora da minha mente, já que dentro as coisas "sólidas" ruíram, ou nunca de fato existiram. Basicamente, o otimismo e o pessimismo se degladiam em busca do grande prêmio, o realismo. Quem levará a melhor? Ninguém, como sempre. O otimismo diz que devemos elevar o pensamento a "algo maior" e acreditar, pois a fé remove montanhas. O pessimismo diz que tudo já foi dito, e que a realidade é dura, e que temos que enfrentá-la com os pés no chão. PQP. LOL. KMN.

31 de julho de 2011

O Fantasma dentro da Máquina


Não pondera, não mede: Explode. Longe de ser adulto, longe de ser criança, longe de ser responsável, longe de merecer o que tem. Longe de ser poeta, longe de ser médico, só sabe exercer a função de monstro. O monstro, com seu espetáculo triste, seu solo enfadonho, seu sapatear "demodê", seu canto sufocado, não causa pena, mas sim vergonha alheia.
O monstro não pode existir para sempre. Expulsar o fantasma da máquina que ele assombra ou Fingir que ele não existe? A máquina tem problemas, e seguirá tendo problemas, se o fantasma não se apropriar dela, assumindo que ele, o fantasma, também é a máquina, ambos são um, e esta condição é única.

19 de junho de 2011

A Nova Blogueira de Damasco


Aisha acordou naque dia pensando em Amina, e inconformada como fora enganada. Um norte-americano idiota se passando por uma síria - uma síria gay. Amina Arraf era uma guerreira e um símbolo entre os jovens. Escrevia em uma linguagem inconfundível que atraia multidões. O governo Sírio temia que o tal Tom MacMaster fosse apenas um dos muitos braços americanos atuando com a desinformação por aqui. Pode até ser mania de perseguição, mas quem, ao menos nesse caso, poderia dizer que eles estavam errados em pensar assim? O fato é que esse MacMaster colocou em risco blogs e bloggers, gays e héteros, especialmente em tempos de "primavera" Síria.
Aisha Levantou-se, vestiu o uniforme e foi à escola. No caminho, pensava em como seria se tivesse um blog. Mas não se achava uma escritora competente o suficiente para ser como tal "Garota Gay de Damasco". E também não achava sua vida pessoal assim tão interessante quanto a de uma lésbica ativista. Afinal, como muitas de suas amigas, sentia atração por rapazes que se revelavam bastante tradicionais, e sua única atividade recente era estudar mais e mais para conseguir ir para uma boa universidade. Amina Arraf, falsa ou não, foi um furacão que chacoalhou as certezas da juventude Síria. As fotos de "Amina" agradavam e muito a homens e mulheres. Jelena Lecic, a croata que emprestou o rosto, contra a vontade, a Amina Arraf, tem nos olhos o brilho do sofrimento e a altivez desafiadora do estereótipo da mulher árabe poderosa. Os árabes em geral têm uma atração pela face altiva e contestadora, a erotização do mártir, ou da mártir.
A um quarteirão da escola, Aisha teve seus pensamentos interrompidos por sua amiga Sâmia, que precisava de seus conselhos. Sâmia havia se casado cedo com Michel, por conta de uma gravidez indesejada. Ela quis continuar os estudos, mas Michel concordou somente após muitas brigas. Agora, Sâmia achava que ele estava tendo algum caso, pois seu interesse por ela, ou mesmo pelo filho, era quase nenhum. Aisha sabia que essa história não tinha nada de original, mas Sâmia era sua amiga, e não conseguia ver o que ocorria com a sua vida como algo que propiciará sua liberdade. Afinal, em qualquer sociedade a mulher que se casa e é abandonada ganha uma liberdade inegável, inimaginável em quaisquer outras condições. Mas Sâmia só conseguia enxergar nessa situação o fracasso.
Aisha ficou com a amiga o quanto pode, e após as aulas voltou para casa. Pensou em Amina, e em mulheres árabes poderosas e revolucionárias; pensou em Sâmia, e nela mesma. Pensou também no famoso livro "As Mil e uma Noites" e na sua protagonista principal. Sherazad e suas histórias para animar e distrair o rei traído (que queria apenas uma noite de prazer com ela, para depois decapitá-la), daria uma blogueira perfeita.
A Síria de Aisha não é perfeita. Sentir-se livre para expressar sua opinião é o que ela sempre quis, e do que sempre teve medo. Havia o serviço de informação e aqueles que estavam a serviço deste. Algumas coisas haviam melhorado recentemente como a oferta de emprego. Mas outras pioraram, como a corrupção institucionalizada. Nada diferente do que se lê das democráticas instituições ocidentais. A Síria de Aisha não é perfeita, mas afinal, que nação é perfeita? Aisha pensava em migrar... como fizeram diversos parentes e conhecidos seus, nas últimas 4 décadas ou mesmo antes. Ou como talvez tivesse feito o próprio presidente do país, formado em medicina no reino unido, que só ocupa hoje a presidência por um acidente fatal com o seu irmão mais velho. Mas migrar é pouco, é ineficaz. Os árabes, e os Sírios em especial, têm um amor à pátria acima da média. Muitas vezes acima do amor próprio. Faz parte da cultura síria amar a Síria. Mas talvez tenha chegado a hora de amá-la de modo diferente.
Os pensamentos de Aisha a dominaram por completo. À noite, com a ajuda do irmão, estava no ar "O Blog da Verdadeira Garota de Damasco". E Aisha sentiu-se mais viva.

13 de junho de 2011

Contexto


Zé e Pedro eram muito muito amigos. Ana e Paula eram suas respectivas companheiras, e também eram muito amigas. Zé e Pedro trabalhavam juntos, e moravam perto. Um dia, Zé e Ana terminaram. Ana não queria ver Zé de jeito nenhum. Paula, solidária à amiga, também não queria ver o Zé, e também não queria que Pedro visse o Zé.
No trabalho, o Zé se aproximava de Pedro para falar do que estava sentindo em relação à separação, mas este correspondia muito pouco, como se estivesse fazendo algo errado.
Zé pediu então se poderia jantar na casa de Pedro, pois queria falar com a Paula, a quem muito considerava. Pedro contou isso à Paula, que relutou, fez bico, disse que não queria, mas no fundo estava com pena do Zé, e acabou cedendo.
No dia combinado, Zé chorava as pitangas para o Pedro, cada um abraçado ao seu copo de uísque, enquanto Paula pegava a sobremesa. Nisso, a campainha tocou. Era Ana, que logo viu o Zé e desatou a chorar e querer ir embora, mas foi impedida pela Paula. Naquele dia, Zé e Ana conversaram e puseram pingos nos "is", enquanto Paula e Pedro saíam para tomar café. Paula tremia. Pedro, calado, pegou em sua mão. Paula retirou a mão e conduziu-a ao rosto. E contou, pela primeira vez na vida a alguém, o que realmente sentia: Não sabia mais quem era, as coisas mudaram, que ela torcia para que a Ana terminasse com o Zé não apenas por achar que este não a merecia, mas sim porque queria a Ana, que a queria para si, que a amava e desejava incontrolavelmente. Pedro, calmo, disse que já desconfiava, e que não tinha tido coragem de perguntar, mas já havia flagrado os olhares e o excesso de zelo dela para com a amiga. "Ainda não acabou", disse Paula. E contou que também havia saído algumas vezes com o Zé, que ele sempre a assediava, e que não sabia porque havia feito aquilo, que não reconhecia a si própria, que não era ela mesma. Pedro sentiu dois duros golpes, fora traído de uma só vez pelo amigo e pela esposa. Em seu orgulho de macho, não se sentiu traído pelo amor confesso da esposa a outra mulher, mas sim aos rápidos affairs entre seu amigo homem e sua esposa. Verteu lágrimas caladas, e percebeu um fim se aproximando, um ponto onde ele pediria para descer. Outras conversas rolaram, uma briga feia entre Pedro e Zé, a separação da Paula, e as conversas com Ana, com quem nunca tinha falado tanto quanto naquelas últimas semanas. Ana chegou a ter um caso com Paula, classificando o sexo como "surpreendente", mas sem chance de um relacionamento sério, pelo contexto, mais do que pela questão de serem do mesmo sexo. Pedro achava o mesmo em relação ao sexo com Paula, mas somente no começo do relacionamento deles. Pedro tinha uma teoria: A mulher solteira se esforça mais, na sedução, no sexo, na dedicação e, sem perceber ou percebendo, engana seu homem, fazendo ele acreditar que se casou com alguém que na realidade não existe.
Pedro e Ana Casaram-se em 2 de abril, em uma cerimônia discreta, talvez porque Ana tenha feito Pedro acreditar que com ela a história seria outra...

9 de junho de 2011

Só reclama quem se importa


Um certo mestre me disse uma vez que quem reclama, na verdade é porque se importa. Quem não reclama não está nem ai. Essa é uma lição que, embora conscientemente me pareça óbvia, na prática sei que ainda não aprendi muito bem. Mas funciona. Amigos de verdade são aqueles que metem o dedo na sua cara para mostrar a você o que de fato você tem que ouvir. Colegas de escritório, de escola, de festinhas, etc., apenas esperam seu tombo para rir e dizer "ah, eu sabia". Às vezes nem isso. Antes, são indiferentes, e simplesmente se calam, pois não têm interesse em seu sucesso ou fracasso. Você, para eles, faz parte da paisagem, mas não do cenário principal.
O recado aqui, para mim e para muitos, é bastante simples: prestemos atenção às reclamações dos outros, e reclamemos daqueles com quem nos importamos. Sem feedback, nada feito.

2 de junho de 2011

A poção da felicidade


Ele sempre sorria. E sempre tinha ideias brilhantes (ao menos ele mesmo julgava-as brilhantes) e que iluminavam a vida. Porém, acordou triste, em um dia meio triste, e foi a um Xamã, que lhe deu uma poção. Deixou a tristeza de lado, mas ao invés de voltar a ser alegre, ficou serio. Foi trabalhar num lugar monótono, onde seria alguém na vida. Subiu na empresa, teve os carros de todos os anos e o Home Theater dos sonhos, no apartamento dos sonhos, e fez viagens de sonhos. Mas era serio, nada mais era tão alegre quanto antes. Não era triste, mas era serio.
Um dia, ele foi a um parque de diversões, procurando a alegria perdida, e entrou na casa dos espelhos, um local que sempre gostou. E os espelhos o refletiram, mais magro, mais alto, mais baixo, mais cheio, torto assim, torto assado; viu-se refletido infinitas vezes. Saiu da casa dos espelhos sentindo-se estranho. Parecia que conhecia todo mundo. Parecia que conhecia cada um dos estranhos com quem esbarrava. Eram todos muito parecidos com ele, como se tivessem saido junto com ele da casa dos espelhos. Todos vestiam terno quase da mesma cor, e óculos de modelos semelhantes, e dirigiam carros parecidos, e o perseguiam em todos os lugares, e moravam no mesmo bairro, alguns até no mesmo prédio. "Que loucura é essa?" pensou, sem saber mais quem imitava quem. Naquela noite, sonhou que outro ele dormia com sua mulher, e brincava com seus filhos, e visitava sua mãe. Ele via o mundo, o seu mundo, mas não fazia parte dele, era só um espectador, em um edificio de vidro, e em todos os andares, a mesma cena se repetia: ele sentado, olhando sua vida em uma tv de lcd. Acordou assustado. E resolveu ir brincar e ser criativo e alegre de novo. Mas não sabia mais como. Perdera a intimidade com a alegria. Teria que começar de novo.

27 de maio de 2011

Cinderela volta ao Baile


Todas as suas roupas haviam voltado a ser os trapos que eram antes da intervenção da fada. Sua carruagem voltara a ser uma abóbora puxada por camundongos. Teria sido um sonho? Não, havia o sapato, o lindo sapato de cristal que perdera na fuga. Se ele estivesse em algum lugar, seria a prova que bastaria para que ela acreditasse.
Trajada como uma mendiga, Cinderela conseguiu entrar junto com pedintes que faziam fila para comer os restos do banquete, despejados pelo serviço da cozinha em grandes tonéis de lixo fedorento. Escondeu-se no quarto das vassouras, onde encontrou um traje das serviçais da festa. Armou-se de uma bandeja com copos, que usou como um escudo para que nem o príncipe nem ninguém visse seu rosto. Foi entrando, e ouvindo uma risada muito conhecida. A irmã adotiva se derretia para cima de seu príncipe, que àquela altura estava tomando champanha em uma taça muito diferente... era o sapato de cristal!!! Com os cabelos despenteados, roupas amassadas, marcas de batom... ela não podia acreditar! O canalha estava se esfregando em sua irmã postiça! O sonho se despedaçara. Largou a bandeja ruidosamente, sem se importar que a reconhecessem, quando percebeu o óbvio: ninguém se importava com a serviçal estabanada, mesmo porque todos os que haviam sobrado estavam bêbados e enamorados. Cinderela percebera então que o baile era uma grande desculpa para que os nobres se soltassem um pouco e, sob os efeitos do álcool, liberassem seus desejos reprimidos pelos seus cotidianos enfadonhos. Nada podia ser melhor. Cinderela não iria mais esperar sentada pelo príncipe, e foi-se embora. Naquela mesma noite, a moça enxotou sua madrasta e irmãs da casa que, afinal, era sua, e coroou-se a Rainha de seu Próprio Castelo.

8 de maio de 2011

Ficamos Seletivos

Na vida metropolita, urbana, selecionamos pessoas. Essa seleção vem com a idade, com a falta de tempo, com a distância geográfica, com a divergência/convergência de interesses. Não somos mais puros, não amamos as diferenças, só estimulamos a semelhança. A metrópole estimula infinitas possibilidades, diferentemente da vida rural, agrária, onde o filho herda a terra do pai, podendo mudar detalhes pequenos, mas ainda viviendo em uma comunidade menor, fazendo as coisas como sempre foram feitas.
A urbe mais afasta que aproxima. Em um primeiro momento, compramos imagens e ideias de urbanos se encontrando, se amando, se curtindo, imagens que estimulam a diferença como princípio, mas a cidade afasta, isola, cria ilhas de solidão, exagera na diferença,passa um pouco da conta. Os interesses pessoais são a primeira triagem: "é do meu meio? Vou ver sempre? Vai me ajudar? Então mantenho proximidade". Ainda nos interesses pessoais, correm na frente os afetivos, as relações amorosa e/ou sexuais, os sonhos de se encontrar alguém que nos veja da forma como queremos ser vistos. Os demais interesses vão entrando na fila, conforme sua prioridade.
Há tempos atrás, eu culparia o racionalismo exacerbado. Hoje vejo que a falta de razão, a falta de sermos "razoáveis", em um mundo injusto, onde o mérito que mais conta é o de ser esperto, são os reais motivos. Os grandes princípios humanos vão ficando para as novas como ideais inatingíveis, enquanto a corrupção e o "cuidar de si" são os regimes. E olhamos as fotos de dez anos atrás como lembranças de outra vida.

15 de abril de 2011

Deficit Emocional

Quando a chapa esquenta, e você não consegue dar conta de tudo, surge o Déficit Emocional. Qualquer engenheiro sabe, e no esquema deles é mais fácil explicar: em um sistema com vários compartimentos e a energia sendo constante, se um dos compartimentos começa a demandar mais energia, começa a haver falta nos demais departamentos.
Sendo um Homem um ser monotarefa por excelência, ao contrário do Windows e das Mulheres, e ainda por cima um sistema fechado, a energia requisitada pela tarefa "sobreviver", em um ambiente conhecido hoje como "selva lá fora", onde os mais mansos cordeiros atacam sua jugular no café da manhã, é enorme. Necessita foco. Necessita concentração. Necessita certezas indubitáveis e inexplicáveis, ou seja, certezas mesmo. Dai vem, em pouco tempo, o Déficit Emocional. A esposa reclama. O filho reclama. A mãe reclama. Os amigos e o mundo reclamam.
Se a tarefa "sobreviver" for cumprida, e ainda assim sobrar capital, O déficit emocional pode ser sanado com a criação de experiences, aqueles momentos raros, que não têm preço, mas que custam uma certa quantidade de capital. Viagens, Presentes, Jantares, Confraternizações... enfim, o preço que se paga para a criação de memórias positivas, o melhor remédio contra o déficit emocional.
Se a tarefa "sobreviver" não está sendo cumprida minimamente, o déficit emocional cresce exponencialmente. Não há a criação de momentos que propiciem a geração de memórias positivas, e a exigência de criatividade acaba sendo muito maior, demandando ainda mais energia, do tipo "hmmm, está uma delícia esse almoço de ontem requentado, não, família?" ou então "eu tenho dó de jogar esse sapato fora, é tão confortável", ou ainda o já famoso "ainda bem que ficamos aqui no feriado, já imaginou o trânsito?"...
Ocorre que essa criatividade tem limites, e a força do embate contínuo exige um misto de estupidez e persistência de um Rain Man... ou de um superman... só que somos humanos, somos mortais, somos carne. Dói muito gerar o déficit emocional, tanto ou mais do que administrar o déficit gerado e acumulado.

28 de março de 2011

Fora do Pecado Não Há Salvação


A ignorância da criança por anos foi louvada. Mas ela cresceu, e escolheu seus caminhos, e neles aprendeu, se feriu, gozou, sofreu e fez sofrer. Aprendeu, enfim. Seria isso o pecado? O pecado original, representado pela maçã e a tentação de Eva, desafiaram a ira do Deus da estabilidade. Não há mudança sem desafios, contestações, revoluções. Não há rei posto, se não desafiarmos a legitimidade divina de sua coroa, se não perguntarmos, na cara de Deus, o porquê da escolha dele, e não d'eu. Fora do Pecado não há Salvação.

24 de março de 2011

Solidão e Solidez

Ontem uma amiga, uma Cândida amiga, escreveu um texto sobre solidão. Bem, a ela eu digo que o feedback é um negócio em desuso por seres humanos, provavelmente causado pelo excesso de informação, metainformação (informação descontextualizada), desinformação("verdades" como correntes, milagres, conincidências numéricas pretensamente inexplcáveis) e informações tergiversais - propagandas e imprensa a serviço de alguém guerreando para conduzir nossa percepção para um lado ou outro de um debate. Comunicar ficou mais complicado.
Somos alvo de tudo, menos do ócio criativo, do livre pensar, não somos senhores do nosso tempo. Com isso, o feedback ficou supérfluo. Sem feedback, o comunicador, o blogueiro, fica no vácuo, no vazio. Ele sabe que sabe produzir um bom texto, mas não sabe corrigir e melhorar, e não pode alterar o rumo - ele fica mais engessado. E coisa é ainda um pouco mais grave. A sociedade sem feedback, sem retroalimentação, é solitária e empobrecida. O feedback analógico foi substituído pelo tuíte, numérico e digital: eu não digo o que penso sobre você e suas ideias, mas você quantifica seu poder de alcance na sociedade do espetáculo, no big brother da vida atual. Tuitar alguém é, sem dúvida, prestigiá-lo, mas não substitui a crítica, a pluralidade de visões.

17 de março de 2011

O Dia em que Faremos Contato

Sentiu que seria diferente daquela vez. Armou-se de confiança e coragem e recomeçou. Enxergou, na manhã chuvosa e fria, um frescor. No trânsito, percebeu o tempo disponível que tinha para refletir. Abriu a janela ao pedinte, deu-lhe dinheiro e tocou em seu braço. Trabalhou o dia inteiro e, ainda alegre, voltou para casa. Brincou com o filho e conversou com a esposa, fizeram planos, viajar, melhorar, voar. Então, sozinho na sacada, olhou para o céu e viu uma luz intensa, de onde saiu um dragão púrpura, que o encarou de frente e falou: "Você é foda! Nunca se esqueça disso". Dai o dragão voltou de onde veio, levando consigo todos os medos que ainda residiam no homem.

16 de fevereiro de 2011

As coisas conversam

Geladeira está sozinha no seu canto, tremendo, quando ouve um "psiu". George Foreman, o Grill, queria saber qual seria o menu do dia. Geladeira sabia que George Foreman só estava puxando papo furado, pretexto para flerte. George Foreman, apesar dos bifes, é um grill bem galinha. Enquanto isso, Criado Mudo guardava segredos pouco edificantes do dono do quarto, e a Ducha Higiênica substituia o sr Bidê. Smartphone e Computador mantinham relacionamento intenso, em cima da mesa, via bluetooth e wi-fi. O gato era apenas carne e instintos, e se suicidaria sem querer, tentando pegar uma vespa que sairia sem destino pela janela do banheiro. Os humanos nunca souberam disso, e tocavam suas vidas mecânicas, trabalho, escola e academia, absorvendo os nutrientes necessários para tornarem-se menos coesos.