26 de julho de 2012
O anoitecer das suas opções
No sonho, mergulho no escuro. Um túnel feito apenas da sensação de ir para frente e para o fundo, sem nenhuma possibilidade de retorno. No sonho não sou humano, sou como um golfinho, não tenho braços, não tenho nada que me freie, somente a oscilação do corpo que termina com uma chicotada da cauda e me impulsiona. Nada vejo, mas paro a milímetros de uma borda de pedra, a parede que simboliza um limite, um fim. Sem cor, sem cheiro, sem pensamento.
Ontem nasceram-me mãos. Para comemorar, de um peixe que por mim passava extirpei suas entranhas. Minhas novas mãos sangraram. Não senti dor. Não senti calma. Não senti pena. Não senti.
15 de julho de 2012
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12 de julho de 2012
Aqui Jaz o Amor
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza." (Álvaro de Campos - het. Fernando Pessoa)
Aqui jaz o amor. Ele ficou feio, pois a vida ficou feia. O amor de amar sentir, de amar estar perto, de amar admirar o outro, acabou. Ele tem força para renascer? Hoje, duvido. Hoje eu sou luto, e não luta. Hoje eu não sou nada além de amargo, ácido, calcinante. Hoje não sou nada além de desajustado, descompassado, inadequado, errante, errado. A minha tese não importa. O meu tesão não tem mais tempo. O meu tesão não tem mais eu. Eu era referenciado por ela. O que gostar, o que vestir, como ser bom, como ser legal. Admiração cede lugar à Admoestação. Lambo minhas feridas, mas agora fui posto num lugar onde não poderei, não mais, causar ferimentos. A minha acidez vai me dissolver e, juntos, eu e minha bile venenosa e ácida, escorreremos pelo ralo, deixando o mundo aos belos de coração. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo."
Nuclear
18 de abril de 2012
Entendendo a hashtag #orkutizacao

"Orkutizar" é sinônimo de que? Democratizar? Empobrecer? É uma invasão? Estão tentando "invadir sua praia", "mexer no seu queijo"? Ora, me poupem desse elitismo camuflado! Falem abertamente que o "instagram", aquele aplicativo semi-retardado de aplicação de filtros mais do que manjados há décadas por qualquer usuário de photoshops ou similares, ficou menos legal quando o amigo parou de receber as fotos cabeça dos Iphones da avenida Paulista, e passou a receber postagens do ônibus a caminho de São Miguel Paulista, postados de um celular genérico dotado de Android... Falem abertamente que as correntes recheadas de crendices, que ofendem a inteligência da nossa elite, estão perturbando você. Grite pra todos que você não gosta dessa mistura, que proibirá seus filhos de frequentarem as redes sociais (só agora???). De quebra, faça um abaixo-assinado junto aos pais de seus filhos, frequentadores daquela escola chique, que só existe porque o Brasil não educou o seu povo - e quando digo povo, incluo você também - revogando quaisquer estações de metrô que ameacem a pureza socio-econômica da sua espécie... A real é que uma rede social não é um clube privé. Você pode separar, ou cancelar, quem não deseja ver. Mas pare de cantar de galo, pois o terreiro não é e nem nunca foi seu.
30 de março de 2012
Como eliminar o seu lado bom

Ele sentia-se pequeno e fraco. Mas destacava-se pelo seu raciocínio rápido. Fazia com que as atenções se voltassem para ele. Só que ser pequeno e fraco o incomodava demais. Então, empenhou-se em ser forte e grande, como aqueles a quem admirava. Ele cresceu. E ficou mais vaidoso. Em seu novo torso forte e grande, colou marcas fortes e grandes, para que elas dissessem tudo o que ele queria ser sem que ele abrisse a boca. E as marcas diziam o quão nobre ele era, , e como ele tinha bom gosto, sucesso e, principalmente, merecia cada milímetro do que vestia, comia, usava, dirigia. As marcas famosas tornavam-no famoso, as marcas queridas tornavam-no querido. Os músculos tornavam-no confiável, e seu olhar era carregado de altivez. Por isso, não dava mais satisfações. Também não havia mais a necessidade de compensar pelas fraquezas, e nem de usar tanto o seu raciocínio rápido. Ele havia mudado, ao invés de bonito e agradável, tornara-se um ser grande, forte e revestido de marcas, ou seja, um ser que PARECIA bonito e agradável - de longe. Mas, de perto, havia ficado feio. Menosprezava sem dizer a ninguém àqueles que não eram grandes e fortes. Desprezava aqueles que não falavam a sua língua e que gostavam das mesmas coisas. Desprezava-se a si mesmo antes de ser grande e forte. E decidiu que sua vida seria vivida com o objetivo único de satisfazer as suas necessidades. O Resto, seria apenas o resto.
18 de fevereiro de 2012
A Gaiola de Adele

Vivemos tempos vazios. Vazios de presente. Melancólicos, como uma música da Adele. A moça representa bem a dor do não realizado, não vivido. Adele é o retrato de uma geração que posa e emposta com firmeza, mas que carrega no peito um vão, um vazio sem perspectivas de preenchimento. Adele me lembra a frase da música "Nobody Home", do Pink Floyd:
"I've got wild staring eyes /I've got a strong urge to fly /But I've got nowhere to fly to.... "
Hoje, mais do que nunca, indivíduos têm a força, têm o poder de se expressar, de se conectar, de se fazer ver e ouvir. E quando todos têm o poder, ninguém tem nada. Toda essa potência, todo esse poder, foi dado a cabeças cheias de dúvidas, cabeças solitárias, pássaros engaiolados que não têm ideia de seu potencial.
Adele canta o sofrimento autêntico. Fosse uma alegria, e quase não seria ouvida. A dor encontra eco nos corações e mentes de todos os pássaros engaiolados do planeta.
10 de setembro de 2011
Não escrevo há meses
31 de julho de 2011
O Fantasma dentro da Máquina

Não pondera, não mede: Explode. Longe de ser adulto, longe de ser criança, longe de ser responsável, longe de merecer o que tem. Longe de ser poeta, longe de ser médico, só sabe exercer a função de monstro. O monstro, com seu espetáculo triste, seu solo enfadonho, seu sapatear "demodê", seu canto sufocado, não causa pena, mas sim vergonha alheia.
19 de junho de 2011
A Nova Blogueira de Damasco

13 de junho de 2011
Contexto

Zé e Pedro eram muito muito amigos. Ana e Paula eram suas respectivas companheiras, e também eram muito amigas. Zé e Pedro trabalhavam juntos, e moravam perto. Um dia, Zé e Ana terminaram. Ana não queria ver Zé de jeito nenhum. Paula, solidária à amiga, também não queria ver o Zé, e também não queria que Pedro visse o Zé.
9 de junho de 2011
Só reclama quem se importa

Um certo mestre me disse uma vez que quem reclama, na verdade é porque se importa. Quem não reclama não está nem ai. Essa é uma lição que, embora conscientemente me pareça óbvia, na prática sei que ainda não aprendi muito bem. Mas funciona. Amigos de verdade são aqueles que metem o dedo na sua cara para mostrar a você o que de fato você tem que ouvir. Colegas de escritório, de escola, de festinhas, etc., apenas esperam seu tombo para rir e dizer "ah, eu sabia". Às vezes nem isso. Antes, são indiferentes, e simplesmente se calam, pois não têm interesse em seu sucesso ou fracasso. Você, para eles, faz parte da paisagem, mas não do cenário principal.
2 de junho de 2011
A poção da felicidade

Ele sempre sorria. E sempre tinha ideias brilhantes (ao menos ele mesmo julgava-as brilhantes) e que iluminavam a vida. Porém, acordou triste, em um dia meio triste, e foi a um Xamã, que lhe deu uma poção. Deixou a tristeza de lado, mas ao invés de voltar a ser alegre, ficou serio. Foi trabalhar num lugar monótono, onde seria alguém na vida. Subiu na empresa, teve os carros de todos os anos e o Home Theater dos sonhos, no apartamento dos sonhos, e fez viagens de sonhos. Mas era serio, nada mais era tão alegre quanto antes. Não era triste, mas era serio.
27 de maio de 2011
Cinderela volta ao Baile

Todas as suas roupas haviam voltado a ser os trapos que eram antes da intervenção da fada. Sua carruagem voltara a ser uma abóbora puxada por camundongos. Teria sido um sonho? Não, havia o sapato, o lindo sapato de cristal que perdera na fuga. Se ele estivesse em algum lugar, seria a prova que bastaria para que ela acreditasse.
8 de maio de 2011
Ficamos Seletivos
15 de abril de 2011
Deficit Emocional
Sendo um Homem um ser monotarefa por excelência, ao contrário do Windows e das Mulheres, e ainda por cima um sistema fechado, a energia requisitada pela tarefa "sobreviver", em um ambiente conhecido hoje como "selva lá fora", onde os mais mansos cordeiros atacam sua jugular no café da manhã, é enorme. Necessita foco. Necessita concentração. Necessita certezas indubitáveis e inexplicáveis, ou seja, certezas mesmo. Dai vem, em pouco tempo, o Déficit Emocional. A esposa reclama. O filho reclama. A mãe reclama. Os amigos e o mundo reclamam.
Se a tarefa "sobreviver" for cumprida, e ainda assim sobrar capital, O déficit emocional pode ser sanado com a criação de experiences, aqueles momentos raros, que não têm preço, mas que custam uma certa quantidade de capital. Viagens, Presentes, Jantares, Confraternizações... enfim, o preço que se paga para a criação de memórias positivas, o melhor remédio contra o déficit emocional.
Se a tarefa "sobreviver" não está sendo cumprida minimamente, o déficit emocional cresce exponencialmente. Não há a criação de momentos que propiciem a geração de memórias positivas, e a exigência de criatividade acaba sendo muito maior, demandando ainda mais energia, do tipo "hmmm, está uma delícia esse almoço de ontem requentado, não, família?" ou então "eu tenho dó de jogar esse sapato fora, é tão confortável", ou ainda o já famoso "ainda bem que ficamos aqui no feriado, já imaginou o trânsito?"...
Ocorre que essa criatividade tem limites, e a força do embate contínuo exige um misto de estupidez e persistência de um Rain Man... ou de um superman... só que somos humanos, somos mortais, somos carne. Dói muito gerar o déficit emocional, tanto ou mais do que administrar o déficit gerado e acumulado.
28 de março de 2011
Fora do Pecado Não Há Salvação
A ignorância da criança por anos foi louvada. Mas ela cresceu, e escolheu seus caminhos, e neles aprendeu, se feriu, gozou, sofreu e fez sofrer. Aprendeu, enfim. Seria isso o pecado? O pecado original, representado pela maçã e a tentação de Eva, desafiaram a ira do Deus da estabilidade. Não há mudança sem desafios, contestações, revoluções. Não há rei posto, se não desafiarmos a legitimidade divina de sua coroa, se não perguntarmos, na cara de Deus, o porquê da escolha dele, e não d'eu. Fora do Pecado não há Salvação.








