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5 de maio de 2010

A Festa Monstro

Um dia, um grupo de monstros que não se encontrava há muito resolveu dar uma festa, para partilharem entre si suas monstruosidades. Na monstronet, trocavam mensagens assustadoras, um dizendo que iria exibir seus dentes, que haviam se desenvolvido demais e irregularmente, enquanto outro dizia que exibiria seus braços, um de cada tamanho e com milhares de dedos em cada 3 (ele tinha pares de 3 braços cada). Um outro monstro anunciava que seu fedor havia piorado com o tempo, e um outro levaria sua família monstruosa.
No dia da festa, salão decorado horripilantemente, buffet com as gororobas mais estranhas para se comer, e os monstros começaram a chegar.
Todos chegaram em carros novos, trajados elegantemente. O monstro que se dizia mal-cheiroso emanava uma essência deliciosa. O montro dos dentes horríveis apresentava lindos marfins, quase azuis de tão brancos, alinhados como caixas de leite na prateleira do mercado. O monstro braçudo nitidamente havia malhado, e o monstro de família parecia ter contratado sua esposa e filhos em uma agência de modelos.
Os quatro monstros se abraçaram, cumprimentaram os outros monstros convidados, pegaram suas bebidas e reuniram-se num canto do salão, ao lado de um Frankenstein de fibra de vidro, e começaram o papo:
 - Fedido, você tá perfumado! disse o monstro braçudo, que ouviu de volta:
 - E você tá saradão, seus bracinhos tão quase do mesmo tamanho...
 - E você dentuço, botou aparelho? perguntou o monstro de família.
 - Pois é, rapaz, eu agora sou modelo e ator, tenho que cuidar da aparência... mas sua esposa também é modelo, certo? perguntou o monstrengo, já nem tão dentuço assim, ao monstro família.
 - É, ela é modelo, como sabe?
 - Acho que participei de um teste para um comercial de fio dental com ela...
 A festa transcorreu tranquila, todos foram saíndo. O monstro braçudo teve que trocar o pneu, furado pelo tomador de conta que não recebeu dele permissão para olhar o carro. O dentuço brigava com o Valet, dizendo que este havia arranhado a roda de liga leve do seu SVU na guia, o que o rapaz negava veementemente, (não, doutor, já tava assim, a gente tem um sistema, marcamos um risquinho no papelzinho que fica com a chave, olha aqui)...
A família monstro saiu discutindo, o marido não gostou que a esposa parecia ter dado abertura a um "Anormal" (SIC) que olhou pra ela a festa inteira, enquanto que a filha se pegava com o irmão por ele ter se pegado com o rapaz vesgo que ela tava de olho, o irmão dizendo que ele olhava para os dois ao mesmo tempo.
Por fim, alguns dias depois o dentuço desabafou na monstronet, dizendo que ficara muito desapontado com a festa, sentia que já não eram as mesmas pessoas, ele inclusive. Filosófico, dentuço tentava descobrir dele e dos outros o ponto onde haviam deixado suas monstruosidades, pois agora ele tinha certeza, não passavam de um bando de humanos de meia-idade, sem grandes sonhos, sem grandes dentes, sem a vida doce de seus áureos tempos de monstruolescência.

4 de maio de 2010

O Monstro, de Novo

Chegou o Monstro. Aquele inesperado e indesejado resultado das nossas ações insensatas. O Monstro é problema, ele causa dor porque sua dor extrapola seu corpo, é visível aos olhos mimados dos doces normais. O Monstro é podre, mas não porque seja sujo, é que sua condição exala o cheiro ruim. O Monstro não faz mal, ele simplesmente não mede sua força, e destrói a beleza com sua mão monstruosa. O Monstro tem pensamentos bons, mas sua aparência causa tamanho nojo que não há tempo de conhecê-lo. O pesadelo do Monstro é tentar chegar perto de alguém e assustá-lo; é tentar explicar que sua essência é boa, porém ser impedido pelo preconceito geral. O Monstro perde, então, as estribeiras, solta um urro profundo de dor pura, de tristeza plena, e sai correndo, derrubando tudo o que encontra em seu caminho.
Mitológico? Claro. O Monstro aqui é o mito da perda de controle do humano. Mas não tenha dúvida, toda perda de controle será recompensada com a morte na fogueira provocada pela multidão enfurecida com suas tochas acesas, bradando por justiça. Enquanto isso, a nobreza continua a assistir a tudo do alto de sua torre de cristal, o padre já se recolheu, fingindo que não é com ele, e o banqueiro reforça a porta do cofre.

4 de maio de 2009

O Monstro II

O Monstro, de acordo com Jorge Leite Jr. em seu maravilhoso "Das Maravilhase e Prodígios Sexuais" é um ser quase santo, que aparece para o homem para adverti-lo do que pode acontecer se ele desobedecer às leis vigentes, à moral em voga. Frankstein é o resultado do homem que brinca de Deus, assim como Hulk, que pretende ser o aperfeiçoamento da criação. O Monstro é aquele que mostra, que avisa, um arauto do que está por vir. De vez em quando somos o Monstro, quando estamos no papel do doente, do demissionário, do perseguido político; outras vezes nascemos Monstros, somos deformados, defeituosos, grandes ou pequenos demais, gordos ou magros demais, ou então nosso defeito não é aparente, somos loucos, psicóticos, obssessivos, compulsivos, depressivos, desviados. De todas as formas, esse exército de não-sadios soltos pelo mundo serve de referência a uma pretensa normalidade predominante. Os Normais são aqueles que não possuem defeitos, se comparados aos monstros com quem convivem, como a garota em relação à amiga "feia", como o chefe que rebaixa seu subordinado, temendo que descubram suas falhas. Os Normais ditam a norma, impõem sua normalidade aos demais "mundos", sobre os quais não conhecem e nem querem conhecer. A Norma é o centro do universo, e o que é de fora é bárbaro, involuido, pecador, sublime, limítrofe. Talvez um dia os Monstros serão a norma, e o Normal de hoje será apenas algo previsível demais; nesse dia, seguir os passos normais talvez não mais valerá a pena ...

26 de abril de 2009

O Monstro I

O Monstro ganha vida e salta da tela, sai de dentro de nós, por nós, para nos mostrar o que somos, do realmente somos feitos. O monstro sai de nossa casca bela, de nosso casulo protegido, e aparece à nossa frente tão feio quanto de fato é, talvez mais feio até. Eu suspiro e sigo em frente, com a realidade chocante dispersa em meio a algo que parece menos que real, um sonho onde tenho a certeza de que estou acordado. Onde há espaço a dor preenche, ela invade na primeira oportunidade, doença inoportuna. Depois a dor cede, dissipa-se, confunde-se com a inevitabilidade da vida, vida é dor, entremeiada de prazeres fugazes e obviamente idiotas. O monstro dorme um pouco, e me deixa dormir por algum tempo. Mas está lá, mora com todos os pequenos e grandes pecados, alimenta-se da nossa culpa, fomenta culpabilidade. O trabalho é árduo, matar o monstro exige técnicas avançadas demais, demoradas demais. Melhor faze-lo dormir, acariciar seu dorso, fazer amizade com o monstro e mantê-lo sob relativo controle. Ele morrerá conosco, talvez faça descendentes conosco, mas nosso monstro pessoal vai para o túmulo, talvez um pouco antes de nós, ou talvez segure nossa mão quando a hora chegar.