25 de janeiro de 2011

Adormeci em cima do computador

Conectado a duas redes sociais, um gerenciador de e-mail e dois chats de trocas de mensagem, adormeci com a mão no mouse. Compartilhei meus sonhos mais escondidos. Visitei todas as páginas e cantos proibidos, li as declarações de amor e ódio, vislumbrei momentos dos quais participei e não participei. Acordei sentindo a solidez e a solidão de trocentos e tantos seres. Acordei balbuciando palavras que não eram minhas, até perceber que nenhuma palavra era minha e nem de ninguém, depois de dita.

13 de janeiro de 2011

Autossabotagem


Há um adolescente dentro de mim. Por vezes eu sufoco esse cara, que cisma em reaparecer, me mostrando que há um adolescente sufocado dentro de mim. Por vezes eu mato esse cara, mas ele ressurge, e me diz que há um adolescente morto dentro de mim. Eu castro esse inútil, mas ele teima em queimar dentro de mim, rindo de mim. Há uma criança livre dentro de mim. Por mais que eu ordene que ela se vá, a sábia criatura apenas sorri e me pergunta: "porque?"

29 de dezembro de 2010

À Década!


A última década levou consigo mais crenças arraigadas. Tenho a impressão de que nasci sabendo muito, e fui deixando muitas certezas pelos caminhos que percorri. Agora, vago vazio. Vago devagar. Descubro estar na melhor idade, principalmente por ser esta a única que tenho no presente.

Que a década que vem leve embora tudo o que faz estagnar o meu ser, e o de todos. Que sejamos lavados de nossas certezas dogmáticas, que entremos nos novos anos com dúvidas, feito crianças, querendo aprender para preencher os espaços vazios, e não como computadores com memórias cheias de mágoas, que nos fazem perder a crença e a vontade.

16 de dezembro de 2010

Visceral


E quando tudo era felicidade falsa, alguém sacou, de dentro de suas próprias vísceras, uma tristeza verdadeira. Amarga e quente como só as tristezas verdadeiras devem ser. Possivelmente pela dor que aquele movimento proporcionou, uma lágrima sentida escorreu pelas sua face, rolou pelos braços e, da ponta do dedo, saltou para uma morte única, achatando-se contra o chão. As unhas compridas começaram a coçar as veias saltadas, até que uma delas foi aberta, desperdiçando o doce sangue para fora de sua trilha quase inexorável.

14 de dezembro de 2010

O tempo de máquina e o tempo fora da máquina


A métrica de produção invadiu o ser humano. O tempo é artigo raro para todos, porque a vida moderna faz com que nos mantenhamos produtivos o maior tempo possível. Não existe part time job que renda aquilo que se precisa para sustentar a máquina. Vivemos pela e para a máquina, vivemos deixando a máquina funcionando em três turnos, como as melhores indústrias de todos os ramos. Porque produzir muito é premissa, produzir sempre é básico, e o preço sobe se o produto fica concentrado e raro, ele tem que ser aos borbotões, tem que invadir todos os nichos, tem que roubar mercado, tem que sobrar e não sobrar. Temos que vender mais por menos e o tempo todo. A cada vez dedicamos mais força para fora, e menos para dentro. Cada vez menos tempo fora da máquina. Cada vez acumulamos mais e mais funções, menos gente fazendo o trabalho de mais gente ainda, e vivendo uma vida sem consciência da verdadeira dimensão que o trabalho ocupa em suas vidas. Corporativos, mesmo que autônomos, mesmo que donas de casa, mesmo que crianças (sim, as nossas crianças e a competitividade quase nata, o excesso de atividades, a morte da ignorância abençoada). Fomos todos institucionalizados.

28 de novembro de 2010

Menininha não quer Crescer


Menininha não quer crescer. Sempre foi mimada e protegida, sempre foi poupada. Se esconde atrás de seus gritinhos e pitis, porque pensa que gritinhos e pitis a isentarão de responsabilidades. Menininha quer ser jovem para sempre, quer fingir ser pura para sempre, se fazer de vítima para sempre. Menininha quer ser a menor de todas e não aceita concorrência. Se esconde debaixo de asas e rabos de saia, para que o mundo não a enfrente nunca. Menininha tem medo, e quando vê o monstro, aperta os olhos e finge que ele não existe, ela espera o monstro sumir. Menininha fica de mal do monstro, transforma tudo que a toca em monstro, para não ser tocada nunca. Menininha não se permite tocar nem afetar, portanto não entende o afeto e nem nunca viveu o afeto. Menininha não crescerá, mas um dia não terá as asas dos outros para se cobrir, nem os rabos de saia onde se agarrar. Nesse dia, então, Menininha supostamente teria que enfrentar o mundo. Talvez um dia ela o faça. Ou, como sempre, optará por fugir para dentro de seu dolorido mundinho sem dor.

27 de novembro de 2010

Lenda Desconhecida


Sentado no meu palco eu observava a movimentação da platéia. Celulares em riste, olhares elevados, ombros elevados, pompa. Eram advogados, matemáticos, gerentes de informática, CEOs, piscólogas, jornalistas e funcionários públicos. Eram seres que tinham vindo se entreter com o teatro que eu fazia e vivia. Enquanto eles estariam lá apenas por algumas horas, eu era aquilo, aquele boneco animado pelo personagem que eu vestisse, e que seria despido em algumas semanas, e vestido com outra roupa em outro novo espetáculo. Eu era o entretenimento errático, sem convicção, de guilhermes e paulas, martas e anas, ligias e césares, todos com suas vidas certas, com data de nascimento, tempo de validade e hora da morte. E eu era imortal, um fantasma que vagava devagar demais, sorvendo uma seiva rala que não me alimentava, não me saciava.
Séculos passaram-se, e a cadeira onde eu sentava apodreceu e deixou de existir. E eu não estava mais ali, tinha sido espalhado pelo ar, esfregado nas paredes, eu era uma lenda que ninguém conhecia.

14 de novembro de 2010

NINA


I Wish I knew How it Would Feel to be Free

(As sung by Nina Simone)

I wish I knew how it would feel to be free
I wish I could break all the chains holding me
I wish I could say all the things that I should say
say 'em loud, say 'em clear
for the whole round world to hear.

I wish I could share all the love that's in my heart
remove all the bars that keep us apart
I wish you could know what it means to be me
Then you'd see and agree
that every man should be free.

I wish I could give all I'm longing to give
I wish I could live like I'm longing to live
I wish that I could do all the things that I can do
though I'm way overdue I'd be starting anew.

Well I wish I could be like a bird in the sky
how sweet it would be if I found I could fly
Oh I'd soar to the sun and look down at the sea
and I'd sing cos I'd know that
and I'd sing cos I'd know that
and I'd sing cos I'd know that
I'd know how it feels to be free
I'd know how it feels to be free
I'd know how it feels to be free
(Sent by Dan)

11 de novembro de 2010

Quando" nós" se torna "eu"


A voz era comunitária e falava por muitas pessoas. A voz eram vozes, eram gritos pedindo atenção, na verdade exigindo. Uma voz refletia a vontade de muitos. Uma voz era a força da união de todas as vozes.
Um dia, a voz perdeu o brilho, e então, aos poucos, foi se calando, fechou-se em si, deixou de ser um pranto unificado, passou a ser um grito calado e triste. Aos poucos, as vozes abandonaram a voz, pois ela já não as representava mais, não contribuía em nada ao brilho das outras vozes. A voz não colaborava mais. A voz enfraqueceu, tornou-se quase inaudível. As vozes foram ser vozes sozinhas, pois a cada uma delas fora prometido "um lugar ao sol". As vozes queriam ser a sua própria voz, mas não entendiam que nunca seriam tão fortes separadas. Enquanto isso, a voz buscava também seu lugar ao sol. E o sol cresceu, ficou grande demais, e engoliu a Terra e todas as vozes, grandes e pequenas, e o dia seguinte nunca aconteceu.

9 de novembro de 2010

dedos gordos imprezizoz

Blogs existencialistas digitados por dedos grossos em um teclado sem teclas não costumam ter muita audiência.

11 de outubro de 2010

Soberba



Certeza de estar com a Verdade. Verborrágica Altivez. Poder de Cura. Poder de Veto. Poder de Síntese. Poder de Foder. A imagem do Dono, Capitão, Coronel, Patriarca, Chefe, Rei. A imagem de um Pastor de Ovelhas apressado. À frente, após a colina, surge o precipício. As ovelhas correm rápido, o rebanho é vasto. A primeira ovelha avista a queda, mas não é capaz de parar, dez outras, cem outras a seguem, certas de que estarem no caminho. O pastor, que perde quase todo o rebanho, culpa o lobo, culpa o tempo, culpa a sorte. Nunca em si a causa. Seu julgamento é soberano, ele tinha pressa, ele tinha seus motivos. Soberba Queda.

30 de setembro de 2010

A melhor expressão de você mesmo


Quem é você? Sua camiseta com Che Guevara mordendo uma maçã da Apple traduz sarcasmo, seu amor por bebida é um tanto autodestrutivo, seu condomínio aprovou a troca das cameras de segurança por modelos mais novos, com som, cores e infravermelho; seu carro atende seu celular com um leve vibrar de banco; sua mulher aplica botox antes dos 30, e chora às 5as feiras no divã. A reforma da praia consome seu tempo livre, mas seu tempo livre sempre é consumido por algo, ou por você mesmo, então na verdade ele não existe.
Eu queria ter ido à peça de duas amigas, pois sei que o teatro é a melhor expressão dessas amigas, ou ao menos eu acho que elas acham isso, sei lá, ficou confuso. O fato é que somos expressos na carne em braile, tiramos de dentro das tripas um lindo coração, sorrimos e continuamos, mesmo quando o nada nos sorri de volta, enigmático.

21 de setembro de 2010

Fim da Euforia




E no final do baile, cansaço. Como um anjo decaído, a máscara se foi, borrada pelo suor e pelo atrito. Botões soltos, sapatos na mão ou esquecidos, de cristal ou de plástico, pouco mais de 4 horas, e poderiam ser doze, ou duas, não importa, a festa sempre acaba.
Festa é o nome que damos ao rito de louvor à felicidade, a uma das mairoes felicidades que conhecemos: a comunhão. Festa é partilhar com o outro do mesmo sentimento, quer seja ele o som, a luz, o glamour ou simplesmente uma reza, é tudo comunhão. Finda a festa, voltamos para a vida. A festa simboliza um pedido humano a um deus qualquer. Pedimos que esse deus torne eterna nossa alegria fugaz, nossa adrenalina de momento, nossa euforia extrema. Mas o responsável não nos atende, ao menos não de bate-pronto. Ele nos diz, metaforicamente, que temos que sofrer mais um pouco para merecermos mais. Temos que penar muito e temos que ter só alguns momentos, vislumbres michos apenas, do que é a felicidade. É cristão, e é absurdo, mas é tudo o que faz a maior parte de nós, a maior parte do escasso tempo que temos.

28 de julho de 2010

Nunca abandonei de verdade


Na minha cabeça, ninguém que um dia foi de verdade importante morre. Eu tenho uma caixinha onde deixo essas pessoas. Não é uma caixinha de razão, do tipo "ah, aquele amigo meu que não vejo mais me ensinou a empinar pipa, logo ele fica aqui, e aquela ex-namorada me ensinou outra coisa que eu guardo ali" - nada disso. É uma coisa mais religiosa, mais de ligação mesmo, com o passado onde vivi com tais pessoas. É um monte de memórias das sensações de uma época, que foram representadas por algumas pessoas.
É claro que tem gente que foi importante para mim, mas que eu fui enterrando, meio que "matei", talvez porque não havia espaço suficiente no meu Hard Disk cerebral. Mas, ao contrário, há outras pessoas que eu penso com muito carinho. Me pergunto o que pensam, acho que acham que eu as "matei". Não. Apenas não tenho condições de ter essas pessoas na minha vida. Perdi intimidade, perdi elos. Percebi que há limites para a abrangência humana, não como um todo, mas na esfera individual. Somos mortais, somos falíveis. Ah, sim, é uma desculpa esfarrapada. Tipicamente humana.

6 de julho de 2010

O Silêncio como Signo

Silenciar significa muitas vezes mais do que falar. Calar pode ser um momento de dúvida, um cansaço ou simplesmente um não tempo, o tempo correndo por dentro e ao redor de você. Silenciar significa inação, incapacidade de reação, obtusidade perante o presente. Presente obtuso. Meu silêncio mescla uma impotência crônica diante do que sou, faço e desejo. Simplesmente olho para a página em branco e não me vejo refletido nas palavras que penso em registrar - ou, o que é pior, poucas palavras vêm.
A velocidade do entorno é maior, é muita, cansa. A impotência e o baixo alcance cansam. E o purismo do coração exige a qualidade acima da quantidade de texto, purismo que na maioria das vezes soa igual a procrastinar, mas tem sua razão de ser.

18 de junho de 2010

E La Nave Va...

Inquieta-se com o olhar do outro sobre si. Inquieta-se e perde a beleza, perde a naturalidade, só perde, Por vezes me pergunto onde ficou a sua deliciosa autenticidade, mas nada, sua fala é superfície, seu aspecto plácido é montado. Cerca-se de outras vidas maquiadas, redomas que fingem interagir. Perde-se em tantos papéis, e prefere não misturar mundos, a se ver obrigada a se entregar. Num mundo onde nada é verdadeiro, é um simples ato a mais, dentre os muitos atos da atriz, intérprete de si mesma, no papel único de ser menos do que é.

27 de maio de 2010

Arrancar a Carne da Boca do Lobo

Assustar. Ameacar. Mostrar unhas. Mostrar dentes. Cercar. Golpear. Estufar o peito para parecer maior. Rosnar. Intimidar. Reunir a matilha, cercar o inimigo, emboscar. Enquanto eles mordem a jugular o inimigo grita, e aproveito para arrancar a carne de sua boca. O Sangue jorra, e nele nos banhamos, urrando vitoria aos 4 ventos, a pele tesa de adrenalina. A vitória é recompensada com o silêncio dos humilhados, a quietude dos vencidos, e o barulho dos vencedores, o tesão químico provocado pela descarga de hormônios, a excitação sádica da prevalência do mais forte. Ao vencedor, as carnes se oferecem. Ao perdedor, melhor que não morra, para apreciar de baixo a minha vitória.

19 de maio de 2010

Virada Cultural 2010


 

Para mim e para quem estava comigo foi uma Roubada Cultural. Para algo que se propõe a ficar 24 horas no ar, tinha muito palco e muito intervalo entre shows. Eu andei pra cacete (o que é bom pelo lado da saúde, mas que fosse com menAs cerva na cabeça, num parque...), desencontrei com todo mundo que eu queria ver, perdi coisas que achei que durariam mais...  na próxima fico só no Anhangabaú, que é o que liga, esticando no máximo até a República - ou vou pra outro ladfo e fico por lá. Ok, acho que tou ficando velho... ou sempre fui... na próxima consulto a programação... perdi a guerra de sabres de luz na praça Roosevelt...



6 de maio de 2010

Esvaziar-se


Começou a vender, a doar e a livrar-se das coisas que não tinham mais utilidade, as tralhas de uma vida que não caberiam nunca no novo apartamento - aliás, nem cabiam no velho. O DVD do Poder do Mito. Uma coleção de dvds do Woody Allan. Aliás, o certo mesmo era mandar embora todos os dvds, pois agora assistia filmes baixados da internet do computador diretamente para a tv, dvd era coisa do século passado. A ergométrica-cabide já fora tarde. As bicicletas idem, usadas nem 5 vezes cada uma. As toneladas de celulares quase bons, substituídos sempre por outros celulares mais novos e também quase bons. Os livros da coleção do verão passado. Os livros de faculdade, os diplomas da antiga empresa, os manuais de procedimentos da qualidade total que nunca mais seriam usados, pois a qualidade total agora era integrada com a sustentabilidade e com as demais regras do capitalismo politicamente correto, eco-logicamente, embora muitos ainda achem que é pra inglês ver, e americano rejeitar, polidamente, em nome da liberdade.
Aquele cata-cata estava virando uma terapia da vida passada, que se repetia diante dos seus olhos, puxando memórias, provocando saudades ou gratidão (ainda bem que isso é passado!!!), dependendo do objeto e de seu contexto.
Algumas coisas eram inexplicáveis, como aquela calculadora com mais de 15 anos que ainda funcionava; duas caixas de sapato lotadas de disquetes de 1,44'' (cujo conteúdo caberia hoje em um pen drive qualquer, ou cartão de memória de celular dos velhos); e a impressionante coleção de carregadores, fios, cabos de rede, cabos de telefone, cabos de força, fones de ouvido, microfones, cabos usb, cabos de impressora, peças sobressalentes de uma cultura de sobressalescência, se é que a palavra existe. E, no paraíso dos anos 90, eis que surge um tupperware lotado de fitas cassete, gravações de rádio, playlists da infância, pequenas máquinas registradoras do nosso empenho manual e pessoal, que enrolavam e eram desenroladas pacientemente, com uma velha caneta bic e muito cuidado.
Ao esvaziar as prateleiras, imaginava-se fazendo uma limpeza mental. Afinal, ele era aquilo que consumiu, alimentar e culturalmente, durante sua vida até aquele momento. homo consummens, o sucessor do homo sapiens, não faz, não sabe fazer, compra feito, certo? Então, por que sentia-se mal? Por que o saudosismo? Talvez, porque tivesse cansado de mudar de formato, de aprender de novo o novo, de concorrer pelo grande prêmio do saber que nunca chegava. Nada de Star Trek, nada de viagens pacíficas de pesquisa que lutavam pela autodefesa, o mundo era muito mais Star Wars, mundos e mais mundos sempre em guerra, a sabedoria Jedi sempre usada para a guerra, o marketing de guerra Jedi, camuflado de coisas simples e rústicas, como a padaria com fachada de madeira e atendentes vestidas como mucamas coloniais, ou o boteco novo com cara de boteco dos anos 40, azulejos antigos, balcões e penduricalhos, que metem a faca pelo 'ambiente' e 'experiência' proporcionados... o simples caro que se torna simulacro mais verdadeiro que o boteco do centro que traz o bêbado pobre e o torresmo com pelo, ao lado do ovo azul.
Pensando nisso tudo, ele parou de escanear as fotos velhas. Decidiu que, ao menos, sua famíla e amigos não seriam jogados fora, envelheceriam normalmente, em papel, sem photoshop.

5 de maio de 2010

A Festa Monstro

Um dia, um grupo de monstros que não se encontrava há muito resolveu dar uma festa, para partilharem entre si suas monstruosidades. Na monstronet, trocavam mensagens assustadoras, um dizendo que iria exibir seus dentes, que haviam se desenvolvido demais e irregularmente, enquanto outro dizia que exibiria seus braços, um de cada tamanho e com milhares de dedos em cada 3 (ele tinha pares de 3 braços cada). Um outro monstro anunciava que seu fedor havia piorado com o tempo, e um outro levaria sua família monstruosa.
No dia da festa, salão decorado horripilantemente, buffet com as gororobas mais estranhas para se comer, e os monstros começaram a chegar.
Todos chegaram em carros novos, trajados elegantemente. O monstro que se dizia mal-cheiroso emanava uma essência deliciosa. O montro dos dentes horríveis apresentava lindos marfins, quase azuis de tão brancos, alinhados como caixas de leite na prateleira do mercado. O monstro braçudo nitidamente havia malhado, e o monstro de família parecia ter contratado sua esposa e filhos em uma agência de modelos.
Os quatro monstros se abraçaram, cumprimentaram os outros monstros convidados, pegaram suas bebidas e reuniram-se num canto do salão, ao lado de um Frankenstein de fibra de vidro, e começaram o papo:
 - Fedido, você tá perfumado! disse o monstro braçudo, que ouviu de volta:
 - E você tá saradão, seus bracinhos tão quase do mesmo tamanho...
 - E você dentuço, botou aparelho? perguntou o monstro de família.
 - Pois é, rapaz, eu agora sou modelo e ator, tenho que cuidar da aparência... mas sua esposa também é modelo, certo? perguntou o monstrengo, já nem tão dentuço assim, ao monstro família.
 - É, ela é modelo, como sabe?
 - Acho que participei de um teste para um comercial de fio dental com ela...
 A festa transcorreu tranquila, todos foram saíndo. O monstro braçudo teve que trocar o pneu, furado pelo tomador de conta que não recebeu dele permissão para olhar o carro. O dentuço brigava com o Valet, dizendo que este havia arranhado a roda de liga leve do seu SVU na guia, o que o rapaz negava veementemente, (não, doutor, já tava assim, a gente tem um sistema, marcamos um risquinho no papelzinho que fica com a chave, olha aqui)...
A família monstro saiu discutindo, o marido não gostou que a esposa parecia ter dado abertura a um "Anormal" (SIC) que olhou pra ela a festa inteira, enquanto que a filha se pegava com o irmão por ele ter se pegado com o rapaz vesgo que ela tava de olho, o irmão dizendo que ele olhava para os dois ao mesmo tempo.
Por fim, alguns dias depois o dentuço desabafou na monstronet, dizendo que ficara muito desapontado com a festa, sentia que já não eram as mesmas pessoas, ele inclusive. Filosófico, dentuço tentava descobrir dele e dos outros o ponto onde haviam deixado suas monstruosidades, pois agora ele tinha certeza, não passavam de um bando de humanos de meia-idade, sem grandes sonhos, sem grandes dentes, sem a vida doce de seus áureos tempos de monstruolescência.