10 de junho de 2022

CoviDEUS




Capa da Graphic Novel "Moonshadow" (1991), narra a história do personagem-título, filho de uma mulher atípica e um GL-Dose, ser de poderes ilimitados que parece basear suas ações em mero capricho, destruindo mundos ou fazendo-os prosperar. Tais seres mantém também um "zoológico" espacial, com espécies de todo o universo. Fonte: https://pipocaenanquim.com.br/



Corremos tanto que nos acostumamos. Passamos a achar normal comer andando e trabalhar em casa até o último fio de gás. Passamos a achar normal apenas passar pela vida, e essa passagem muitas vezes é solitária. Nos fizeram crer que correr é ser digno, que estar sempre ocupado é a única forma de nos tornarmos apresentáveis. As coisas já eram assim em grande parte do mundo ocidental. Dai veio o COVID19, e tudo conseguiu ficar pior. Todos trabalham muito mais, mas ficaram mais pobres. E assim vivemos e, enquanto vivemos, nos acostumamos com as mortes - as mortes físicas e a morte em vida. Um vírus é só um vírus, mas ele pode ser Deus. CoviDeus19, um Deus nada único, já surge prometendo a vinda de seu sucessor: 20, 21... É um deus minúsculo que faz parte de um panteão. Nascido dos pecados humanos - é sempre o clima - ele nos prepara para o apocalipse e o juízo final. Aceitamos sua inexorabilidade. Passamos a achar normal a doença e o que ela traz: distanciamento e desconfiança justificados como "preventivos", o saudosismo do velho normal, rotulado como não mais possível... Contemporizamos o teletrabalho e a tentativa pífia de ensino remoto, e assim não socializamos e não permitimos socializar. Mas, como dizia Zigmunt Bauman, "separados, compramos". E como! Com o medo instaurado, desenvolvemos como loucos os serviços de entrega, baseados em um modelo de negócios no qual a precarização do trabalho é seu principal motor. A pandemia do Covid19 inaugurou um nicho global baseado no medo da morte, remediado com a morte em vida, ao custo de nossa sanidade. Com o padrão de pensamento já instalado nos usuários, fica fácil vender novas doenças, vacinas, máscaras, sistemas de EAD e teletrabalho... Os profissionais de saúde (leia-se principalmente enfermeiras, mas não só), exaustos, vão sendo substituídos por outros, mais baratos. 25-30% dos professores já flertaram com a ideia de mudar de carreira. E assim alguns países abrem suas portas aos profissionais de países mais pobres, dando continuidade à exploração colonial e à implosão das próprias redes de seguridade social internas (quando ainda existem). Com isso, é claro que a renda se concentra ainda mais. Tenham medo! A Varíola dos Macacos vai pegar você, a menos que você faça o que mandarem. Fique em casa e aguarde instruções. Em tempo, eu acredito que há uma pandemia lá fora e tomei todas as vacinas que me deram. Mas acredito também que quem se beneficia de uma dada situação está, quase sempre, muito bem preparado para fazê-lo. Eu já vi muita podridão humana em ação para aceitar sem crítica a ideia de acaso.

9 de maio de 2022

Nu Frontal


 Um corpo é sempre um corpo nu

E é sempre um corpo no espaço vazio

O nu no corpo solto da cidade

A nudez invisível do corpo da vida

O corpo nu transita vestido, finge-se desestruturado para disfarçar o desengonçado.

Trajado em risca de giz que não disfarça a pele ultrajada, ulterior, última e primeira vestimenta. O corpo, para enfrentar a luta de não ser corpo, leva armadura sobre a pele, a casca que nasce a se desmanchar.


Um corpo sadio é um corpo tão corpo quanto um corpo doente. Ambos são quentes por fora, úmidos por dentro e se arrepiam ao frio e se intumecem ao toque.


Um corpo é só um corpo, até não ser mais nada. Qual corpo se diverte mais, o sadio ou o doente? Quanto sofre um corpo sadio até gozar? Quanto goza um corpo plebeu até adoecer?


Encorpar para incorporar? Educorar e aromatizar para exportar: o corpo expulso que se crê expatriado quando sempre foi e será um refugiado, um refugo.


Sempre um corpo no espaço vazio

O nu no corpo solto da cidade


Um corpo invisível no improvável do hoje, no  inexorável do aqui,no imponderável do "até quando"

10 de outubro de 2019

O Mito de Pinóquio

Fonte da imagem: Abertura da série "The Politician" (Netflix): 

Quanto falta para você se tornar um "menino de verdade"? O que precisa fazer? Mudar de sexo? Emagrecer? Passar no vestibular? Ganhar mais? Virar mestre, doutor, pós doc?

A cada passo que dou, ou não dou, vou percebendo que vim pra esse mundo para notar como sou pequeno, e para aceitar minha pequenez. Só que, muitas vezes, o processo de se perceber pequeno, passa pelo de se perceber Pinóquio, o menino de madeira que queria ser um menino de verdade, amado de verdade, com razão e aplausos como seus fiéis avalistas.
Pinóquio quer muito ser de verdade e, assim, de fato pertencer a um mundo que apenas frequenta, um mundo feito para outros e não para si, onde seu corpo de pau é um corpo estranho. Pinóquio vive, contudo, um dilema: ele deve se comportar bem, para que um dia ganhe o merecido prêmio da transformação em humano, mas é tentado pela vida a fazer coisas que lhe dão prazer, afinal é isso que humanos fazem. Humanos vivem uma vida cidadã, uma vida de pertencimentos, uma vida plena. Humanos fazem besteiras, cometem erros grandes. Mas nem todos podem, pois não estão na mesma categoria. Os cidadãos podem. Aos outros, é vendida a ideia de mérito. "Se você se comportar/se esforçar/lutar com mais afinco/não fazer merda, será um de nós".
Em muitos níveis, somos todos Pinóquios. Dificilmente alguém está satisfeito com o nível de humanidade que atingiu. No entanto, algumas portas não se abrem via mérito. por mais que pintemos a pele com marcas e flores, esta sempre delatará que foi feita de um toco de madeira, de um nó de lignina.




Querer Tudo

As pequenas negociatas. Não consigo ceder, não consigo querer menos. Não é que eu seja ambicioso em termos materiais, pelo contrário. Só que quero do meu jeito. O meu jeito. O meu. Eu. Não quero me contentar com menos do que aquilo que imagino justo. Será que, por isso, sou ingrato? É fácil para aqueles que acham que há um ser superior vigiando e guiando seus passos, contentar-se. Não me contento, porque haveria de me contentar? Dar graças por ter pernas e braços e olhos e cérebro? Sim, existem os que nada tem. Não existo se não do meu jeito. Por isso sou tão babaca. E egocêntrico também.

In Vino Veritas

Sou um amante da verdade. Adoro a crudeza de um sorriso escrachado. Amo um descontrole emocional. E um deboche amigo. Essas coisas só são possíveis em ambientes não envenenados pela pretensão. Por isso, odeio a pretensão. E odeio os pretensiosos que pretendem ser a evolução da humanidade mas, por isso mesmo, são exatamente o contrário. São as asas de Ícaro, que por mais alto que o levem, ainda são de cera, e derretem com o calor.
Pois é, mas a pretensão é uma praga. O cara se acha o tal amaral, porque marcou mais pontos que o outro, porque teve mais mulheres, mais carros, mais publicações, mais influência com o regente da orquestra, mais amizade com a rainha do baile, mais bala na agulha com o prefeito da cidade.
Para minimizar essas diferenças entre diferentes poderes e moedas, e para talvez trazer à tona a essência primordial, pura e simples, dos homens e mulheres, criou-se a bebida alcoólica. Extremamente democrática, coloca todos no mesmo nível, por apenas uma noite. Depois, tudo volta ao seu desequilíbrio de casta usual.

25 de agosto de 2012

Recorte

Não se pode ser tudo. Há que se fazer escolhas. Uma alma contida em uma escala pequena de desejos não brilha. Uma alma incontida, desejando incondicionalmente a tudo e a todos, também não brilha. Ha que se fazer recortes. Aparar arestas. Lapidar-se. Uma alma incontida almeja tocar o céu, mas o faz por caminhos demasiadamente terrenos. A flor e o diamante. Há que se enxergar a roupa invisível do rei e, ainda assim, dizer a todos que o traje é belo. Há que se amar o poema, mas martelar o duro metal a fim de dar a ele uma forma que dificilmente será alterada. Alterar a forma, a fôrma, formar uma vida, a cada martelada uma nova forma, a cada martelada uma nova dor. Optar pelo metal bruto ou o metal trabalhado. Se opta-se pelo bruto, admira-se a beleza natural da gema; se opta-se  pela lapidação, a forma natural se vai, para ser transformada em outra beleza. Contenha-se. Castigue-se. Capriche. E lembre-se: tudo vai se perder um dia, a arte é fátua, o fogo extingue-se, a vida nasce morta.

26 de julho de 2012

O anoitecer das suas opções

Respiro fundo e admito: não acertei em todas as minhas escolhas. A questão é que este fato, o não acertar, foi também uma escolha. Com ela convivo. É a partir dela que farei novas escolhas. Acho que o nome disso é "aprender com os erros". Nada como frases feitas, jargões e expressões para simplificar e sintetizar uma gama enormemente variada de ações e sentimentos.
No sonho, mergulho no escuro. Um túnel feito apenas da sensação de ir para frente e para o fundo, sem nenhuma possibilidade de retorno. No sonho não sou humano, sou  como um golfinho, não tenho braços, não tenho nada que me freie, somente a oscilação do corpo que termina com uma chicotada da cauda e me impulsiona. Nada vejo, mas paro a milímetros de uma borda de pedra, a parede que simboliza um limite, um fim. Sem cor, sem cheiro, sem pensamento.
Ontem nasceram-me mãos. Para comemorar, de um peixe que por mim passava extirpei suas entranhas. Minhas novas mãos sangraram. Não senti dor. Não senti calma. Não senti pena. Não senti.

15 de julho de 2012

Link

A casa escura e vazia. A minha presença não enche todo esse espaço, então prefiro apenas o quarto. O silêncio faz com que pensamentos e memórias tornem-se muito mais palpáveis. O som que vem da janela é como uma concha, pode-se ouvir algo do mar ao fundo, e por cima buzinas, freadas, vozes e aviões. Eu tenho um pouco de medo desse barulho, e acabo colocando algo mais barulhento por cima, como uma camada sonora extra. O medo não é do barulho em si, mas sim dos pensamentos que tento abafar. Na arca bíblica, perdida num mundo feito de água, e levando consigo a súplica duplicada do choro de todos os animais, Noé teria se queixado de não ser capaz de ouvir os próprios pensamentos. Sou o meu prórpio Noé, e sou também minha arca. Embora queira acreditar que não sou mundano, percebo que ninguém , de verdade, é terreno. Vivemos para o futuro, estamos aqui hoje em função do passado de outrém, e nunca somos verdadeiramente nós.

Nós, pronome da primeira pessoa do plural, ou nós, o plural de nó. Não somos nó, somos links, hiperlinks. Um nó, dado em uma corda de barco, por exemplo, representa um compromisso estabelecido entre a corda e o mastro, entre o barco e o porto. Um link é apenas uma referência, um indicativo que dá passagem a um outro elemento. O link representa o elemento, mas não assume características daquilo que é representante. É uma referência sem compromisso, sem garantias, se o site linkado não estiver mais ali, paciência. Como já disse, nunca somos nós. Somos, no máximo, links.

Trabalhamos para o futuro, e nos narcotizamos no presente para que possamos tolerar chegar um dia ao inatingível futuro. Quando eu tiver barba, quando fizer dezoito, onde estarei daqui a 5 anos, os fins sempre justificando os meios, a felicidade sempre sendo postergada. Deixamos para o meio apenas o vazio. O plasma a que chamamos "Ar" a nos rodear, como um grande espírito nos envolvendo, claramente sussurrando ao pé de nossos ouvidos "és ilha". Encontramo-nos cercados de um escuro que rouba a luz, em ambientes que parecem impedir a propagação, por mais que se troque a lâmpada, mas tudo continua opaco.

Algum dia, não muito distante, entrarei no mar de sons, não mais o ouvirei de dentro da concha, mas farei parte das buzinas, freadas, vozes e barulhos de avião.Talvez leve comigo um fone de ouvido. Mas, por hora, tenho muito o que pensar e lembrar. E costurar.

12 de julho de 2012

Aqui Jaz o Amor

"Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza." (Álvaro de Campos - het. Fernando Pessoa)

Aqui jaz o amor. Ele ficou feio, pois a vida ficou feia. O amor de amar sentir, de amar estar perto, de amar admirar o outro, acabou. Ele tem força para renascer? Hoje, duvido. Hoje eu sou luto, e não luta. Hoje eu não sou nada além de amargo, ácido, calcinante. Hoje não sou nada além de desajustado, descompassado, inadequado, errante, errado. A minha tese não importa. O meu tesão não tem mais tempo. O meu tesão não tem mais eu. Eu era referenciado por ela. O que gostar, o que vestir, como ser bom, como ser legal. Admiração cede lugar à Admoestação. Lambo minhas feridas, mas agora fui posto num lugar onde não poderei, não mais, causar ferimentos. A minha acidez vai me dissolver e, juntos, eu e minha bile venenosa e ácida, escorreremos pelo ralo, deixando o mundo aos belos de coração. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo."

Nuclear

Quando um núcleo racha, podemos suspeitar de algumas coisas. a primeira, é que não se tratava de um núcleo, ou seja, havia divisibilidade; a segunda, consequência da primeira, é que este núcleo só se manteve unido porque havia a querência, as partes se atraíam de tal modo que se identificavam como um núcleo. Núcleo duro, núcleo sólido; a terceira hipótese seria pensar que forças fracas uniam esse núcleo, ou melhor, fortes forças advindas da fraqueza de cada parte. Torço para que a terceira ideia seja nula. E torço para que a força forte seja uma prova de que as partes podem se unir para formar mais do que uma fornalha.

18 de abril de 2012

Entendendo a hashtag #orkutizacao


"Orkutizar" é sinônimo de que? Democratizar? Empobrecer? É uma invasão? Estão tentando "invadir sua praia", "mexer no seu queijo"? Ora, me poupem desse elitismo camuflado! Falem abertamente que o "instagram", aquele aplicativo semi-retardado de aplicação de filtros mais do que manjados há décadas por qualquer usuário de photoshops ou similares, ficou menos legal quando o amigo parou de receber as fotos cabeça dos Iphones da avenida Paulista, e passou a receber postagens do ônibus a caminho de São Miguel Paulista, postados de um celular genérico dotado de Android... Falem abertamente que as correntes recheadas de crendices, que ofendem a inteligência da nossa elite, estão perturbando você. Grite pra todos que você não gosta dessa mistura, que proibirá seus filhos de frequentarem as redes sociais (só agora???). De quebra, faça um abaixo-assinado junto aos pais de seus filhos, frequentadores daquela escola chique, que só existe porque o Brasil não educou o seu povo - e quando digo povo, incluo você também - revogando quaisquer estações de metrô que ameacem a pureza socio-econômica da sua espécie... A real é que uma rede social não é um clube privé. Você pode separar, ou cancelar, quem não deseja ver. Mas pare de cantar de galo, pois o terreiro não é e nem nunca foi seu.

30 de março de 2012

Como eliminar o seu lado bom


Ele sentia-se pequeno e fraco. Mas destacava-se pelo seu raciocínio rápido. Fazia com que as atenções se voltassem para ele. Só que ser pequeno e fraco o incomodava demais. Então, empenhou-se em ser forte e grande, como aqueles a quem admirava. Ele cresceu. E ficou mais vaidoso. Em seu novo torso forte e grande, colou marcas fortes e grandes, para que elas dissessem tudo o que ele queria ser sem que ele abrisse a boca. E as marcas diziam o quão nobre ele era, , e como ele tinha bom gosto, sucesso e, principalmente, merecia cada milímetro do que vestia, comia, usava, dirigia. As marcas famosas tornavam-no famoso, as marcas queridas tornavam-no querido. Os músculos tornavam-no confiável, e seu olhar era carregado de altivez. Por isso, não dava mais satisfações. Também não havia mais a necessidade de compensar pelas fraquezas, e nem de usar tanto o seu raciocínio rápido. Ele havia mudado, ao invés de bonito e agradável, tornara-se um ser grande, forte e revestido de marcas, ou seja, um ser que PARECIA bonito e agradável - de longe. Mas, de perto, havia ficado feio. Menosprezava sem dizer a ninguém àqueles que não eram grandes e fortes. Desprezava aqueles que não falavam a sua língua e que gostavam das mesmas coisas. Desprezava-se a si mesmo antes de ser grande e forte. E decidiu que sua vida seria vivida com o objetivo único de satisfazer as suas necessidades. O Resto, seria apenas o resto.

18 de fevereiro de 2012

A Gaiola de Adele


Vivemos tempos vazios. Vazios de presente. Melancólicos, como uma música da Adele. A moça representa bem a dor do não realizado, não vivido. Adele é o retrato de uma geração que posa e emposta com firmeza, mas que carrega no peito um vão, um vazio sem perspectivas de preenchimento. Adele me lembra a frase da música "Nobody Home", do Pink Floyd:

"I've got wild staring eyes /I've got a strong urge to fly /But I've got nowhere to fly to.... "

Hoje, mais do que nunca, indivíduos têm a força, têm o poder de se expressar, de se conectar, de se fazer ver e ouvir. E quando todos têm o poder, ninguém tem nada. Toda essa potência, todo esse poder, foi dado a cabeças cheias de dúvidas, cabeças solitárias, pássaros engaiolados que não têm ideia de seu potencial.

Adele canta o sofrimento autêntico. Fosse uma alegria, e quase não seria ouvida. A dor encontra eco nos corações e mentes de todos os pássaros engaiolados do planeta.

10 de setembro de 2011

Não escrevo há meses

Basicamente, tudo o que pensei em escrever neste blog nos últimos meses pareceu vazio de sentido. Ah, sim, nunca fez de fato muito sentido, a novidade é eu me incomodar com isso. Zero Sentido. Um herói vagando à noite pela cidade, vestido dos pés à cabeça com uma elanca apertada na barriga e no saco, um ZS mal costurado onde deveria ser o peito, buscando em cada canto, cada janela acesa, cada bar, algum sentido por fora da minha mente, já que dentro as coisas "sólidas" ruíram, ou nunca de fato existiram. Basicamente, o otimismo e o pessimismo se degladiam em busca do grande prêmio, o realismo. Quem levará a melhor? Ninguém, como sempre. O otimismo diz que devemos elevar o pensamento a "algo maior" e acreditar, pois a fé remove montanhas. O pessimismo diz que tudo já foi dito, e que a realidade é dura, e que temos que enfrentá-la com os pés no chão. PQP. LOL. KMN.

31 de julho de 2011

O Fantasma dentro da Máquina


Não pondera, não mede: Explode. Longe de ser adulto, longe de ser criança, longe de ser responsável, longe de merecer o que tem. Longe de ser poeta, longe de ser médico, só sabe exercer a função de monstro. O monstro, com seu espetáculo triste, seu solo enfadonho, seu sapatear "demodê", seu canto sufocado, não causa pena, mas sim vergonha alheia.
O monstro não pode existir para sempre. Expulsar o fantasma da máquina que ele assombra ou Fingir que ele não existe? A máquina tem problemas, e seguirá tendo problemas, se o fantasma não se apropriar dela, assumindo que ele, o fantasma, também é a máquina, ambos são um, e esta condição é única.

19 de junho de 2011

A Nova Blogueira de Damasco


Aisha acordou naque dia pensando em Amina, e inconformada como fora enganada. Um norte-americano idiota se passando por uma síria - uma síria gay. Amina Arraf era uma guerreira e um símbolo entre os jovens. Escrevia em uma linguagem inconfundível que atraia multidões. O governo Sírio temia que o tal Tom MacMaster fosse apenas um dos muitos braços americanos atuando com a desinformação por aqui. Pode até ser mania de perseguição, mas quem, ao menos nesse caso, poderia dizer que eles estavam errados em pensar assim? O fato é que esse MacMaster colocou em risco blogs e bloggers, gays e héteros, especialmente em tempos de "primavera" Síria.
Aisha Levantou-se, vestiu o uniforme e foi à escola. No caminho, pensava em como seria se tivesse um blog. Mas não se achava uma escritora competente o suficiente para ser como tal "Garota Gay de Damasco". E também não achava sua vida pessoal assim tão interessante quanto a de uma lésbica ativista. Afinal, como muitas de suas amigas, sentia atração por rapazes que se revelavam bastante tradicionais, e sua única atividade recente era estudar mais e mais para conseguir ir para uma boa universidade. Amina Arraf, falsa ou não, foi um furacão que chacoalhou as certezas da juventude Síria. As fotos de "Amina" agradavam e muito a homens e mulheres. Jelena Lecic, a croata que emprestou o rosto, contra a vontade, a Amina Arraf, tem nos olhos o brilho do sofrimento e a altivez desafiadora do estereótipo da mulher árabe poderosa. Os árabes em geral têm uma atração pela face altiva e contestadora, a erotização do mártir, ou da mártir.
A um quarteirão da escola, Aisha teve seus pensamentos interrompidos por sua amiga Sâmia, que precisava de seus conselhos. Sâmia havia se casado cedo com Michel, por conta de uma gravidez indesejada. Ela quis continuar os estudos, mas Michel concordou somente após muitas brigas. Agora, Sâmia achava que ele estava tendo algum caso, pois seu interesse por ela, ou mesmo pelo filho, era quase nenhum. Aisha sabia que essa história não tinha nada de original, mas Sâmia era sua amiga, e não conseguia ver o que ocorria com a sua vida como algo que propiciará sua liberdade. Afinal, em qualquer sociedade a mulher que se casa e é abandonada ganha uma liberdade inegável, inimaginável em quaisquer outras condições. Mas Sâmia só conseguia enxergar nessa situação o fracasso.
Aisha ficou com a amiga o quanto pode, e após as aulas voltou para casa. Pensou em Amina, e em mulheres árabes poderosas e revolucionárias; pensou em Sâmia, e nela mesma. Pensou também no famoso livro "As Mil e uma Noites" e na sua protagonista principal. Sherazad e suas histórias para animar e distrair o rei traído (que queria apenas uma noite de prazer com ela, para depois decapitá-la), daria uma blogueira perfeita.
A Síria de Aisha não é perfeita. Sentir-se livre para expressar sua opinião é o que ela sempre quis, e do que sempre teve medo. Havia o serviço de informação e aqueles que estavam a serviço deste. Algumas coisas haviam melhorado recentemente como a oferta de emprego. Mas outras pioraram, como a corrupção institucionalizada. Nada diferente do que se lê das democráticas instituições ocidentais. A Síria de Aisha não é perfeita, mas afinal, que nação é perfeita? Aisha pensava em migrar... como fizeram diversos parentes e conhecidos seus, nas últimas 4 décadas ou mesmo antes. Ou como talvez tivesse feito o próprio presidente do país, formado em medicina no reino unido, que só ocupa hoje a presidência por um acidente fatal com o seu irmão mais velho. Mas migrar é pouco, é ineficaz. Os árabes, e os Sírios em especial, têm um amor à pátria acima da média. Muitas vezes acima do amor próprio. Faz parte da cultura síria amar a Síria. Mas talvez tenha chegado a hora de amá-la de modo diferente.
Os pensamentos de Aisha a dominaram por completo. À noite, com a ajuda do irmão, estava no ar "O Blog da Verdadeira Garota de Damasco". E Aisha sentiu-se mais viva.

13 de junho de 2011

Contexto


Zé e Pedro eram muito muito amigos. Ana e Paula eram suas respectivas companheiras, e também eram muito amigas. Zé e Pedro trabalhavam juntos, e moravam perto. Um dia, Zé e Ana terminaram. Ana não queria ver Zé de jeito nenhum. Paula, solidária à amiga, também não queria ver o Zé, e também não queria que Pedro visse o Zé.
No trabalho, o Zé se aproximava de Pedro para falar do que estava sentindo em relação à separação, mas este correspondia muito pouco, como se estivesse fazendo algo errado.
Zé pediu então se poderia jantar na casa de Pedro, pois queria falar com a Paula, a quem muito considerava. Pedro contou isso à Paula, que relutou, fez bico, disse que não queria, mas no fundo estava com pena do Zé, e acabou cedendo.
No dia combinado, Zé chorava as pitangas para o Pedro, cada um abraçado ao seu copo de uísque, enquanto Paula pegava a sobremesa. Nisso, a campainha tocou. Era Ana, que logo viu o Zé e desatou a chorar e querer ir embora, mas foi impedida pela Paula. Naquele dia, Zé e Ana conversaram e puseram pingos nos "is", enquanto Paula e Pedro saíam para tomar café. Paula tremia. Pedro, calado, pegou em sua mão. Paula retirou a mão e conduziu-a ao rosto. E contou, pela primeira vez na vida a alguém, o que realmente sentia: Não sabia mais quem era, as coisas mudaram, que ela torcia para que a Ana terminasse com o Zé não apenas por achar que este não a merecia, mas sim porque queria a Ana, que a queria para si, que a amava e desejava incontrolavelmente. Pedro, calmo, disse que já desconfiava, e que não tinha tido coragem de perguntar, mas já havia flagrado os olhares e o excesso de zelo dela para com a amiga. "Ainda não acabou", disse Paula. E contou que também havia saído algumas vezes com o Zé, que ele sempre a assediava, e que não sabia porque havia feito aquilo, que não reconhecia a si própria, que não era ela mesma. Pedro sentiu dois duros golpes, fora traído de uma só vez pelo amigo e pela esposa. Em seu orgulho de macho, não se sentiu traído pelo amor confesso da esposa a outra mulher, mas sim aos rápidos affairs entre seu amigo homem e sua esposa. Verteu lágrimas caladas, e percebeu um fim se aproximando, um ponto onde ele pediria para descer. Outras conversas rolaram, uma briga feia entre Pedro e Zé, a separação da Paula, e as conversas com Ana, com quem nunca tinha falado tanto quanto naquelas últimas semanas. Ana chegou a ter um caso com Paula, classificando o sexo como "surpreendente", mas sem chance de um relacionamento sério, pelo contexto, mais do que pela questão de serem do mesmo sexo. Pedro achava o mesmo em relação ao sexo com Paula, mas somente no começo do relacionamento deles. Pedro tinha uma teoria: A mulher solteira se esforça mais, na sedução, no sexo, na dedicação e, sem perceber ou percebendo, engana seu homem, fazendo ele acreditar que se casou com alguém que na realidade não existe.
Pedro e Ana Casaram-se em 2 de abril, em uma cerimônia discreta, talvez porque Ana tenha feito Pedro acreditar que com ela a história seria outra...

9 de junho de 2011

Só reclama quem se importa


Um certo mestre me disse uma vez que quem reclama, na verdade é porque se importa. Quem não reclama não está nem ai. Essa é uma lição que, embora conscientemente me pareça óbvia, na prática sei que ainda não aprendi muito bem. Mas funciona. Amigos de verdade são aqueles que metem o dedo na sua cara para mostrar a você o que de fato você tem que ouvir. Colegas de escritório, de escola, de festinhas, etc., apenas esperam seu tombo para rir e dizer "ah, eu sabia". Às vezes nem isso. Antes, são indiferentes, e simplesmente se calam, pois não têm interesse em seu sucesso ou fracasso. Você, para eles, faz parte da paisagem, mas não do cenário principal.
O recado aqui, para mim e para muitos, é bastante simples: prestemos atenção às reclamações dos outros, e reclamemos daqueles com quem nos importamos. Sem feedback, nada feito.

2 de junho de 2011

A poção da felicidade


Ele sempre sorria. E sempre tinha ideias brilhantes (ao menos ele mesmo julgava-as brilhantes) e que iluminavam a vida. Porém, acordou triste, em um dia meio triste, e foi a um Xamã, que lhe deu uma poção. Deixou a tristeza de lado, mas ao invés de voltar a ser alegre, ficou serio. Foi trabalhar num lugar monótono, onde seria alguém na vida. Subiu na empresa, teve os carros de todos os anos e o Home Theater dos sonhos, no apartamento dos sonhos, e fez viagens de sonhos. Mas era serio, nada mais era tão alegre quanto antes. Não era triste, mas era serio.
Um dia, ele foi a um parque de diversões, procurando a alegria perdida, e entrou na casa dos espelhos, um local que sempre gostou. E os espelhos o refletiram, mais magro, mais alto, mais baixo, mais cheio, torto assim, torto assado; viu-se refletido infinitas vezes. Saiu da casa dos espelhos sentindo-se estranho. Parecia que conhecia todo mundo. Parecia que conhecia cada um dos estranhos com quem esbarrava. Eram todos muito parecidos com ele, como se tivessem saido junto com ele da casa dos espelhos. Todos vestiam terno quase da mesma cor, e óculos de modelos semelhantes, e dirigiam carros parecidos, e o perseguiam em todos os lugares, e moravam no mesmo bairro, alguns até no mesmo prédio. "Que loucura é essa?" pensou, sem saber mais quem imitava quem. Naquela noite, sonhou que outro ele dormia com sua mulher, e brincava com seus filhos, e visitava sua mãe. Ele via o mundo, o seu mundo, mas não fazia parte dele, era só um espectador, em um edificio de vidro, e em todos os andares, a mesma cena se repetia: ele sentado, olhando sua vida em uma tv de lcd. Acordou assustado. E resolveu ir brincar e ser criativo e alegre de novo. Mas não sabia mais como. Perdera a intimidade com a alegria. Teria que começar de novo.

27 de maio de 2011

Cinderela volta ao Baile


Todas as suas roupas haviam voltado a ser os trapos que eram antes da intervenção da fada. Sua carruagem voltara a ser uma abóbora puxada por camundongos. Teria sido um sonho? Não, havia o sapato, o lindo sapato de cristal que perdera na fuga. Se ele estivesse em algum lugar, seria a prova que bastaria para que ela acreditasse.
Trajada como uma mendiga, Cinderela conseguiu entrar junto com pedintes que faziam fila para comer os restos do banquete, despejados pelo serviço da cozinha em grandes tonéis de lixo fedorento. Escondeu-se no quarto das vassouras, onde encontrou um traje das serviçais da festa. Armou-se de uma bandeja com copos, que usou como um escudo para que nem o príncipe nem ninguém visse seu rosto. Foi entrando, e ouvindo uma risada muito conhecida. A irmã adotiva se derretia para cima de seu príncipe, que àquela altura estava tomando champanha em uma taça muito diferente... era o sapato de cristal!!! Com os cabelos despenteados, roupas amassadas, marcas de batom... ela não podia acreditar! O canalha estava se esfregando em sua irmã postiça! O sonho se despedaçara. Largou a bandeja ruidosamente, sem se importar que a reconhecessem, quando percebeu o óbvio: ninguém se importava com a serviçal estabanada, mesmo porque todos os que haviam sobrado estavam bêbados e enamorados. Cinderela percebera então que o baile era uma grande desculpa para que os nobres se soltassem um pouco e, sob os efeitos do álcool, liberassem seus desejos reprimidos pelos seus cotidianos enfadonhos. Nada podia ser melhor. Cinderela não iria mais esperar sentada pelo príncipe, e foi-se embora. Naquela mesma noite, a moça enxotou sua madrasta e irmãs da casa que, afinal, era sua, e coroou-se a Rainha de seu Próprio Castelo.