Corremos tanto que nos acostumamos. Passamos a achar normal comer andando e trabalhar em casa até o último fio de gás. Passamos a achar normal apenas passar pela vida, e essa passagem muitas vezes é solitária. Nos fizeram crer que correr é ser digno, que estar sempre ocupado é a única forma de nos tornarmos apresentáveis. As coisas já eram assim em grande parte do mundo ocidental. Dai veio o COVID19, e tudo conseguiu ficar pior. Todos trabalham muito mais, mas ficaram mais pobres. E assim vivemos e, enquanto vivemos, nos acostumamos com as mortes - as mortes físicas e a morte em vida. Um vírus é só um vírus, mas ele pode ser Deus. CoviDeus19, um Deus nada único, já surge prometendo a vinda de seu sucessor: 20, 21... É um deus minúsculo que faz parte de um panteão. Nascido dos pecados humanos - é sempre o clima - ele nos prepara para o apocalipse e o juízo final. Aceitamos sua inexorabilidade. Passamos a achar normal a doença e o que ela traz: distanciamento e desconfiança justificados como "preventivos", o saudosismo do velho normal, rotulado como não mais possível... Contemporizamos o teletrabalho e a tentativa pífia de ensino remoto, e assim não socializamos e não permitimos socializar. Mas, como dizia Zigmunt Bauman, "separados, compramos". E como! Com o medo instaurado, desenvolvemos como loucos os serviços de entrega, baseados em um modelo de negócios no qual a precarização do trabalho é seu principal motor. A pandemia do Covid19 inaugurou um nicho global baseado no medo da morte, remediado com a morte em vida, ao custo de nossa sanidade. Com o padrão de pensamento já instalado nos usuários, fica fácil vender novas doenças, vacinas, máscaras, sistemas de EAD e teletrabalho... Os profissionais de saúde (leia-se principalmente enfermeiras, mas não só), exaustos, vão sendo substituídos por outros, mais baratos. 25-30% dos professores já flertaram com a ideia de mudar de carreira. E assim alguns países abrem suas portas aos profissionais de países mais pobres, dando continuidade à exploração colonial e à implosão das próprias redes de seguridade social internas (quando ainda existem). Com isso, é claro que a renda se concentra ainda mais. Tenham medo! A Varíola dos Macacos vai pegar você, a menos que você faça o que mandarem. Fique em casa e aguarde instruções. Em tempo, eu acredito que há uma pandemia lá fora e tomei todas as vacinas que me deram. Mas acredito também que quem se beneficia de uma dada situação está, quase sempre, muito bem preparado para fazê-lo. Eu já vi muita podridão humana em ação para aceitar sem crítica a ideia de acaso.
BaBeL
10 de junho de 2022
CoviDEUS
Corremos tanto que nos acostumamos. Passamos a achar normal comer andando e trabalhar em casa até o último fio de gás. Passamos a achar normal apenas passar pela vida, e essa passagem muitas vezes é solitária. Nos fizeram crer que correr é ser digno, que estar sempre ocupado é a única forma de nos tornarmos apresentáveis. As coisas já eram assim em grande parte do mundo ocidental. Dai veio o COVID19, e tudo conseguiu ficar pior. Todos trabalham muito mais, mas ficaram mais pobres. E assim vivemos e, enquanto vivemos, nos acostumamos com as mortes - as mortes físicas e a morte em vida. Um vírus é só um vírus, mas ele pode ser Deus. CoviDeus19, um Deus nada único, já surge prometendo a vinda de seu sucessor: 20, 21... É um deus minúsculo que faz parte de um panteão. Nascido dos pecados humanos - é sempre o clima - ele nos prepara para o apocalipse e o juízo final. Aceitamos sua inexorabilidade. Passamos a achar normal a doença e o que ela traz: distanciamento e desconfiança justificados como "preventivos", o saudosismo do velho normal, rotulado como não mais possível... Contemporizamos o teletrabalho e a tentativa pífia de ensino remoto, e assim não socializamos e não permitimos socializar. Mas, como dizia Zigmunt Bauman, "separados, compramos". E como! Com o medo instaurado, desenvolvemos como loucos os serviços de entrega, baseados em um modelo de negócios no qual a precarização do trabalho é seu principal motor. A pandemia do Covid19 inaugurou um nicho global baseado no medo da morte, remediado com a morte em vida, ao custo de nossa sanidade. Com o padrão de pensamento já instalado nos usuários, fica fácil vender novas doenças, vacinas, máscaras, sistemas de EAD e teletrabalho... Os profissionais de saúde (leia-se principalmente enfermeiras, mas não só), exaustos, vão sendo substituídos por outros, mais baratos. 25-30% dos professores já flertaram com a ideia de mudar de carreira. E assim alguns países abrem suas portas aos profissionais de países mais pobres, dando continuidade à exploração colonial e à implosão das próprias redes de seguridade social internas (quando ainda existem). Com isso, é claro que a renda se concentra ainda mais. Tenham medo! A Varíola dos Macacos vai pegar você, a menos que você faça o que mandarem. Fique em casa e aguarde instruções. Em tempo, eu acredito que há uma pandemia lá fora e tomei todas as vacinas que me deram. Mas acredito também que quem se beneficia de uma dada situação está, quase sempre, muito bem preparado para fazê-lo. Eu já vi muita podridão humana em ação para aceitar sem crítica a ideia de acaso.
9 de maio de 2022
Nu Frontal
Um corpo é sempre um corpo nu
E é sempre um corpo no espaço vazio
O nu no corpo solto da cidade
A nudez invisível do corpo da vida
O corpo nu transita vestido, finge-se desestruturado para disfarçar o desengonçado.
Trajado em risca de giz que não disfarça a pele ultrajada, ulterior, última e primeira vestimenta. O corpo, para enfrentar a luta de não ser corpo, leva armadura sobre a pele, a casca que nasce a se desmanchar.
Um corpo sadio é um corpo tão corpo quanto um corpo doente. Ambos são quentes por fora, úmidos por dentro e se arrepiam ao frio e se intumecem ao toque.
Um corpo é só um corpo, até não ser mais nada. Qual corpo se diverte mais, o sadio ou o doente? Quanto sofre um corpo sadio até gozar? Quanto goza um corpo plebeu até adoecer?
Encorpar para incorporar? Educorar e aromatizar para exportar: o corpo expulso que se crê expatriado quando sempre foi e será um refugiado, um refugo.
Sempre um corpo no espaço vazio
O nu no corpo solto da cidade
Um corpo invisível no improvável do hoje, no inexorável do aqui,no imponderável do "até quando"
10 de outubro de 2019
O Mito de Pinóquio
A cada passo que dou, ou não dou, vou percebendo que vim pra esse mundo para notar como sou pequeno, e para aceitar minha pequenez. Só que, muitas vezes, o processo de se perceber pequeno, passa pelo de se perceber Pinóquio, o menino de madeira que queria ser um menino de verdade, amado de verdade, com razão e aplausos como seus fiéis avalistas.
Pinóquio quer muito ser de verdade e, assim, de fato pertencer a um mundo que apenas frequenta, um mundo feito para outros e não para si, onde seu corpo de pau é um corpo estranho. Pinóquio vive, contudo, um dilema: ele deve se comportar bem, para que um dia ganhe o merecido prêmio da transformação em humano, mas é tentado pela vida a fazer coisas que lhe dão prazer, afinal é isso que humanos fazem. Humanos vivem uma vida cidadã, uma vida de pertencimentos, uma vida plena. Humanos fazem besteiras, cometem erros grandes. Mas nem todos podem, pois não estão na mesma categoria. Os cidadãos podem. Aos outros, é vendida a ideia de mérito. "Se você se comportar/se esforçar/lutar com mais afinco/não fazer merda, será um de nós".
Em muitos níveis, somos todos Pinóquios. Dificilmente alguém está satisfeito com o nível de humanidade que atingiu. No entanto, algumas portas não se abrem via mérito. por mais que pintemos a pele com marcas e flores, esta sempre delatará que foi feita de um toco de madeira, de um nó de lignina.
Querer Tudo
In Vino Veritas
25 de agosto de 2012
Recorte
26 de julho de 2012
O anoitecer das suas opções
No sonho, mergulho no escuro. Um túnel feito apenas da sensação de ir para frente e para o fundo, sem nenhuma possibilidade de retorno. No sonho não sou humano, sou como um golfinho, não tenho braços, não tenho nada que me freie, somente a oscilação do corpo que termina com uma chicotada da cauda e me impulsiona. Nada vejo, mas paro a milímetros de uma borda de pedra, a parede que simboliza um limite, um fim. Sem cor, sem cheiro, sem pensamento.
Ontem nasceram-me mãos. Para comemorar, de um peixe que por mim passava extirpei suas entranhas. Minhas novas mãos sangraram. Não senti dor. Não senti calma. Não senti pena. Não senti.
15 de julho de 2012
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12 de julho de 2012
Aqui Jaz o Amor
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza." (Álvaro de Campos - het. Fernando Pessoa)
Aqui jaz o amor. Ele ficou feio, pois a vida ficou feia. O amor de amar sentir, de amar estar perto, de amar admirar o outro, acabou. Ele tem força para renascer? Hoje, duvido. Hoje eu sou luto, e não luta. Hoje eu não sou nada além de amargo, ácido, calcinante. Hoje não sou nada além de desajustado, descompassado, inadequado, errante, errado. A minha tese não importa. O meu tesão não tem mais tempo. O meu tesão não tem mais eu. Eu era referenciado por ela. O que gostar, o que vestir, como ser bom, como ser legal. Admiração cede lugar à Admoestação. Lambo minhas feridas, mas agora fui posto num lugar onde não poderei, não mais, causar ferimentos. A minha acidez vai me dissolver e, juntos, eu e minha bile venenosa e ácida, escorreremos pelo ralo, deixando o mundo aos belos de coração. "Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo."